Cristal se espatifou no mármore aos meus pés, e de alguma forma duzentas pessoas olharam pra mim como se eu tivesse causado aquilo.

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Chapter 1

Cristal se espatifou no mármore aos meus pés, e de alguma forma duzentas pessoas olharam pra mim como se eu tivesse causado aquilo.

A namorada do meu ex-marido tinha derrubado a taça de champanhe de propósito, minha própria mãe me disse pra não fazer cena, e antes do fim da noite, o homem mais perigoso daquele salão estaria estendendo a mão pra mim.

A mesa dezenove ficava escondida atrás de uma coluna decorativa, exatamente onde a cerimonialista do casamento da minha irmã Natalie tinha me colocado pra eu “não atrapalhar o fotógrafo”.

Eu estava ali, num vestido azul-marinho que tinha comprado em liquidação três anos antes, meu uniforme de enfermagem ainda dobrado no banco de trás do carro depois de um plantão duplo no Children’s Memorial.

Minha filha de quatro anos, Mia, estava em casa com uma babá que eu mal conseguia pagar.

Enquanto isso, Marcus — meu ex-marido, e pai da Mia quando lhe convinha — tinha passado o coquetel inteiro me ignorando, enquanto uma loira mais jovem se agarrava ao braço dele.

Foi então que ela atravessou o salão em minha direção.

— Desculpa — disse ela, com um sorriso doce, enquanto o vidro se espatifava ao redor dos meus sapatos. — Achei que tinha mais espaço.

Tinha espaço de sobra.

Todo mundo sabia disso.

— Elena — sibilou minha mãe do outro lado do salão. — Por favor, não faz cena.

Quase ri.

Natalie estava parada, congelada perto da pista de dança, o buquê na mão. Meu pai encarava o próprio uísque. E Marcus só me olhava com aquela expressão familiar de leve irritação, como se minha humilhação estivesse atrasando a noite dele.

Me abaixei e comecei a juntar os cacos de cristal.

Um garçom correu até mim.

— Senhora, por favor, eu cuido disso.

— Eu dou conta — respondi, no automático.

Claro que eu dava conta.

Eu sempre dava conta.

Alguma coisa dentro de mim ficou completamente parada.

— Eu vou embora — sussurrei.

Ninguém me impediu.

Aquilo doeu mais do que o vidro.

Atravessei o salão com os ombros retos enquanto cochichos me seguiam até a saída.

Mãe solo.

Enfermeira.

Casou nova demais.

Marcus realmente subiu de vida.

Cheguei ao banheiro antes que a primeira lágrima caísse.

Por exatos noventa segundos, chorei em silêncio dentro de um box trancado.

Então meu celular vibrou com uma mensagem da babá da Mia, dizendo que ela tinha dormido depois de ouvir a história favorita do dragão.

Pelo menos uma coisa naquela noite ainda estava boa.

Quando fui até a pia, uma mulher loira e elegante, num vestido prateado, entrou atrás de mim.

— Você é a Elena Carter.

— A gente se conhece?

— Não. Mas minha sobrinha conhece.

Ela se apresentou como Sophia Avery e mencionou Emma Rodriguez, uma menina de sete anos que eu tinha cuidado antes de uma cirurgia pra remover um tumor na coluna. Lembrei dos cachos escuros dela, das mãos trêmulas, do elefante de pelúcia chamado Peanut.

— Ela está livre do câncer agora — disse Sophia. — Ainda fala da enfermeira que ficou duas horas a mais contando histórias sobre um dragão com medo de médico.

Um calor me atingiu tão de repente que minha garganta apertou.

Sophia me entregou um cartão de visitas.

— Se um dia você cansar de trabalhar demais e ganhar de menos, me liga.

— Eu não sou advogada.

— Eu não disse que você precisava ser. Só competente sob pressão.

Antes de sair, ela olhou pro salão.

— Só pra constar, você merece coisa melhor do que seja lá o que está acontecendo ali dentro.

Guardei o cartão na minha bolsa de mão e voltei pro corredor.

— Já vai embora?

A voz veio das sombras perto do guarda-volumes.

Me virei.

Ele era alto, ombros largos, vestindo um terno cinza-chumbo que parecia feito sob medida. Cabelo escuro, queixo definido, olhos impossíveis de ler — e uma quietude que parecia muito mais perigosa do que raiva.

— Acho que a gente não se conhece — falei.

— Não conhecemos.

A voz dele carregava um leve sotaque italiano.

— Mas eu sei quem você é.

Eu estava cansada demais pra me importar.

— Parabéns. Você ouviu a mesma fofoca que todo mundo.

A boca dele se curvou de leve.

— Não tenho interesse em fofoca.

— Então no que você tem interesse?

Os olhos dele passaram por mim, na direção de Marcus, lá dentro do salão.

Depois voltaram pros meus.

— Em você.

Ele deixou a taça de lado e estendeu uma das mãos.

— Dança comigo.

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