Chapter 4
Passei os dias seguintes num estado constante de alerta, verificando a fechadura da porta duas, três vezes antes de dormir, olhando pela janela sempre que um carro passava mais devagar do que deveria pela minha rua.
Liguei pro número que Alessandro tinha me dado três dias depois, incapaz de aguentar mais a incerteza sozinha.
Ele atendeu no segundo toque.
— Elena.
— Como você sabia que era eu?
— Guardei seu número assim que você me deu o seu, na festa. Só não te liguei porque não queria parecer insistente demais.
Apesar de tudo, quase sorri.
— Eu falei com o Marcus. Ele confirmou a dívida.
— Eu sei.
— Você sabe?
— Elena, esse mundo é menor do que você imagina. As pessoas que ele deve dinheiro conversaram com pessoas que eu conheço bem antes de você me ligar.
Meu estômago revirou.
— E o que elas disseram?
— Que a paciência delas está acabando. Marcus tem duas semanas pra pagar, ou elas vão começar a considerar outras formas de garantir o pagamento.
— Que tipo de outras formas?
Alessandro hesitou, e aquele silêncio disse mais do que qualquer palavra.
— Elena, eu preciso te encontrar pessoalmente pra conversar sobre isso.
Concordamos em nos encontrar numa cafeteria pequena perto do hospital onde eu trabalhava, um lugar público, neutro, onde eu me sentia menos exposta.
Ele chegou vestindo roupas mais simples do que o terno da festa, mas ainda assim havia algo nele que fazia as pessoas ao redor baixarem a voz sem perceber por quê.
— Obrigada por vir — falei, enquanto ele se sentava à minha frente.
— Eu prometi que ajudaria, se fosse necessário.
— Por que você continua fazendo isso? Se envolvendo num problema que não é seu?
Ele ficou em silêncio por um longo momento, girando o café entre as mãos.
— Posso te contar uma coisa que eu não conto pra muita gente?
Assenti, curiosa.
— Minha irmã mais velha se envolveu com um homem parecido com o Marcus, anos atrás. Dívidas, promessas vazias, mentiras sobre pra onde o dinheiro ia. Quando as pessoas certas finalmente perderam a paciência com ele, ela e a filha dela ficaram no meio do fogo cruzado.
Sua voz baixou, carregada de algo antigo e doloroso.
— Eu não cheguei a tempo de proteger elas como devia.
— O que aconteceu?
— Minha sobrinha, a que eu mencionei, é filha dela. Minha irmã não sobreviveu àquela noite.
O ar saiu dos meus pulmões.
— Sinto muito, Alessandro.
— Por isso eu não vou deixar isso acontecer de novo, se eu puder evitar. Nem com você, nem com sua filha.
Fiquei em silêncio, processando a dor por trás daquelas palavras, entendendo finalmente por que um homem tão poderoso e distante tinha se importado o suficiente pra atravessar um salão de festas por uma estranha chorando dentro de um banheiro.
— O que eu preciso fazer? — perguntei, finalmente.
— Eu posso quitar a dívida do Marcus.
— Eu não posso te pedir isso.
— Você não está pedindo. Eu estou oferecendo.
— E depois? Ele vai ficar te devendo pra sempre, e isso pode ser pior do que a dívida original.
Alessandro assentiu, reconhecendo o ponto.
— Então eu vou fazer diferente. Vou negociar diretamente com as pessoas que ele deve, garantir a segurança da sua filha independente do que acontecer com ele, e deixar claro que qualquer ameaça contra vocês duas vai ter consequências que ninguém vai querer enfrentar.
— Você faria isso?
— Já fiz a ligação ontem à noite.
Olhei pra ele, surpresa, uma mistura confusa de gratidão e medo se instalando no peito.
— E se isso colocar você em perigo?
Um sorriso pequeno, quase triste, cruzou o rosto dele.
— Elena, eu já vivo em perigo há muito tempo. A diferença é que, dessa vez, é por um motivo que eu realmente acho que vale a pena.
Foi nesse momento que meu celular vibrou sobre a mesa, um número desconhecido, e quando atendi, a voz do outro lado fez meu sangue gelar.
— Sua filha é linda, Elena. Seria uma pena se algo acontecesse com ela por causa das escolhas idiotas do pai.
