Cristal se espatifou no mármore aos meus pés, e de alguma forma duzentas pessoas olharam pra mim como se eu tivesse causado aquilo.

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Chapter 6

Ele chegou naquela noite depois que Mia já estava dormindo, sem o terno impecável de sempre, só uma camisa simples e uma expressão de cansaço que eu nunca tinha visto nele.

Abri a porta e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o abracei.

Ele ficou parado por um segundo, surpreso, antes de retribuir o abraço com uma força contida que parecia carregar semanas de tensão acumulada.

— Obrigada — sussurrei contra o peito dele. — Por tudo.

— Você não precisa agradecer.

— Preciso, sim. Você não tinha nenhuma obrigação de se envolver nisso.

Ele se afastou o suficiente pra olhar nos meus olhos, uma mão ainda apoiada de leve no meu braço.

— Eu escolhi me envolver, Elena. Da mesma forma que você escolheu se levantar sozinha, com a cabeça erguida, depois daquela taça se espatifar no chão.

Sentamos na sala pequena, e ele me contou os detalhes que eu ainda não sabia — como tinha encontrado os homens que Marcus devia, como a conversa tinha sido tensa por alguns minutos antes de se resolver com a quitação completa da dívida, e como ele tinha deixado absolutamente claro, sem espaço pra dúvida, que qualquer ameaça futura contra mim ou contra Mia teria consequências que ninguém naquele mundo estaria disposto a enfrentar.

— E o Marcus? — perguntei. — Ele sabe disso tudo?

— Sabe. E, pelo que me disseram, ele está mais assustado agora do que jamais esteve na vida.

— Bom.

A palavra saiu mais dura do que eu esperava, mas não me arrependi dela.

— Ele decepcionou vocês duas de tantas formas, Elena. Eu não vou fingir que sinto pena dele.

Ficamos em silêncio por um tempo, só a companhia um do outro preenchendo o espaço, algo que eu não sentia fazia anos — segurança, de verdade, sem a necessidade constante de estar alerta.

— Posso te perguntar uma coisa? — falei, finalmente.

— Qualquer coisa.

— O que acontece agora? Você volta pro seu mundo de negócios internacionais e eu volto pros meus plantões duplos, e a gente finge que essas semanas nunca aconteceram?

Ele pegou minha mão entre as dele, os olhos escuros sérios, mas suaves de um jeito que eu ainces não tinha visto antes daquela noite.

— Eu não quero fingir nada, Elena. Eu quero continuar aparecendo, se você me deixar. Não pelas dívidas, não pelo perigo. Só porque eu gosto de estar perto de você, e da sua filha.

Meu peito se apertou, uma mistura de esperança e medo residual que eu ainda não sabia como largar completamente.

— Isso não vai ser fácil. Meu mundo é hospital, plantão noturno, contas atrasadas. O seu é completamente diferente.

— Talvez a gente descubra um jeito de fazer os dois mundos se encontrarem no meio do caminho.

Semanas depois, Natalie me ligou, a voz hesitante, pedindo desculpas por não ter dito nada naquela noite do casamento.

— Eu devia ter defendido você — disse ela. — Todo mundo devia.

— Está tudo bem, Nat.

— Não está, mas obrigada por dizer isso.

Minha mãe nunca chegou a se desculpar de verdade, mas parou de comentar sobre “fazer cena” toda vez que eu mencionava Alessandro nas conversas de família, o que, pra ela, já era quase um pedido de desculpas disfarçado.

Marcus, por sua vez, começou a pagar a pensão da Mia em dia pela primeira vez em anos, movido menos por arrependimento genuíno e mais pelo medo evidente de qualquer coisa que pudesse trazer Alessandro de volta pra sua vida.

Eu não me importava com o motivo.

Só me importava que Mia finalmente tinha o que merecia.

Um ano depois daquela noite catastrófica no casamento da minha irmã, Alessandro me levou pra jantar num restaurante simples, longe dos salões cheios de cristal e diamantes que eu tinha aprendido a associar com humilhação.

No meio do jantar, ele tirou do bolso um pequeno estojo de veludo, e antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, ele já estava ajoelhado ao lado da mesa.

— Elena Carter, você entrou na minha vida numa noite em que eu só queria observar um casamento chato de longe, e desde então eu nunca mais consegui parar de pensar em você.

Mia, sentada ao meu lado, começou a bater palminhas antes mesmo de eu conseguir responder, como se já soubesse exatamente o que estava por vir.

Olhei pro homem ajoelhado à minha frente, pensando em toda a distância entre a mulher que tinha se abaixado sozinha pra juntar cacos de cristal no chão e a mulher que eu tinha me tornado desde então.

— Sim — respondi, a voz tremendo de emoção genuína, pela primeira vez em muito tempo. — Sim, eu aceito.

E enquanto ele colocava o anel no meu dedo, entendi finalmente que às vezes a pior noite da nossa vida é só o início de uma história completamente diferente do que a gente jamais imaginou possível.

E você, já teve uma noite terrível que, no fim, acabou sendo o começo de algo muito melhor?

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