A corda já tinha rasgado minha pele quando a noiva de Roman Calder se agachou ao meu lado e perguntou, quase com doçura: “Algum último desejo antes de você partir?”

Written by

in

Chapter 1

A corda já tinha rasgado minha pele quando a noiva de Roman Calder se agachou ao meu lado e perguntou, quase com doçura: “Algum último desejo antes de você partir?” Ela achava que tinha vencido. Não fazia ideia de que Roman estava parado do lado de fora do galpão, ouvindo cada palavra — e não fazia ideia de que eu ainda estava protegendo o único segredo capaz de destruí-la.

Eu estava deitada no chão gelado de concreto de um galpão abandonado perto do porto de Baltimore, fraca demais para me sentar e desidratada demais para chorar. Depois de seis dias sem ver o sol, o tempo tinha perdido completamente o significado. Eu não sabia mais se era de manhã ou meia-noite.

Só sabia que meu irmão de nove anos, Caleb, estava esperando por mim.

Ele provavelmente estava sentado perto da janela da Senhora Adler, segurando aquela latinha amassada que ele guardava havia meses com tanto carinho. Ele ainda devia acreditar que eu ia voltar para casa, porque eu nunca tinha quebrado uma promessa feita a ele.

Evelyn Sterling se inclinou mais perto, os brincos de diamante brilhando sob a única lâmpada pendurada no teto.

— Vamos — ela sussurrou. — Certamente uma mulher como você tem um último pedido.

Forcei meus lábios inchados a se abrirem.

— Diz para o Caleb…

Minha voz falhou antes que eu conseguisse terminar.

— Diz para ele que eu não o abandonei.

Pela primeira vez, o sorriso de Evelyn se tornou genuíno.

— Ai, querida — ela disse. — Até amanhã, todo mundo vai acreditar que você abandonou, sim.

Nenhuma de nós duas viu a sombra por baixo da porta do galpão. Nenhuma de nós ouviu Roman encostar a mão no aço gelado do outro lado.

Seis dias antes, Roman Calder mal sabia que eu existia.

Ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesma.

Toda manhã da minha vida começava antes do amanhecer. Às 4h35, eu me levantava do sofá-cama do pequeno apartamento em Highlandtown que dividia com Caleb. Os canos batiam sempre que o aquecimento ligava, a janela da cozinha estava selada com fita adesiva transparente, e a geladeira zumbia alto o suficiente para ser ouvida do corredor.

Eu nunca reclamava.

Dobrava meu cobertor, me lavava na pia e preparava o café da manhã do Caleb antes de acordá-lo para a escola. Nos dias em que precisava sair mais cedo, deixava um bilhete ao lado da tigela dele.

Come tudo. Não esquece a marmita. A Senhora Adler bate na porta às sete. Eu te amo mais que todas as estrelas.

Caleb guardava cada bilhete numa caixa de sapato debaixo da cama.

Naquela manhã, encontrei ele acordado, escondido debaixo do cobertor.

— O que você está escondendo? — perguntei.

— Nada.

A resposta veio rápido demais, e eu sorri.

Quando estendi a mão em direção ao travesseiro dele, ele jogou os dois braços por cima.

— Não!

— Você é um criminoso péssimo.

— Eu não sou criminoso. Estou planejando uma surpresa.

— Para quem?

Ele me encarou como se a resposta fosse óbvia.

— Para você.

Debaixo do travesseiro havia uma caixinha de metal coberta de adesivos desbotados de beisebol. As moedas chacoalharam quando ele apertou contra o peito.

— Há quanto tempo você está guardando isso?

— Isso é confidencial.

— Devo chamar o governo?

— Você não pode. Eu tenho segurança.

Ele apontou para um cachorro de pelúcia com um olho faltando, e eu ri antes de beijar a testa dele.

Então o rosto dele mudou.

— Você vai estar em casa hoje à noite, né?

— Eu sempre estou em casa à noite.

— Você chegou tarde na terça.

— O Senhor Calder tinha visitas.

Caleb franziu a testa.

— Eu não gosto desse homem.

— Você nunca conheceu ele.

— Você trabalha demais por causa dele. — Ele hesitou. — Ele já disse obrigado alguma vez?

A pergunta me parou.

Roman nunca tinha me agradecido. Também nunca tinha me insultado, e, dentro da mansão dos Calder, a indiferença dele quase parecia uma forma de proteção.

Eu trabalhava lá havia cinco anos, primeiro como assistente de cozinha, depois como cozinheira particular de Roman. Sabia que ele bebia café preto, odiava cebola, e pulava o café da manhã sempre que passava a noite inteira acordado. Sabia que ele ficava olhando para o porto nas manhãs de chuva, e esfregava a cicatriz ao longo do maxilar sempre que alguém mencionava o pai dele.

Também sabia que, às vezes, ele acordava de pesadelos.

Naquela manhã, encontrei ele dormindo na biblioteca, agarrado à poltrona de couro, suor brilhando na testa.

— Não — ele murmurou. — Mãe, abaixa.

Por um breve momento, o homem mais temido de Baltimore parecia um menino apavorado.

Preparei um chá de camomila com mel, coloquei ao lado dele e cobri os ombros dele com um cobertor.

Então os olhos dele se abriram.

— Quem fez isso?

Congelei.

— Desculpa, Senhor Calder. O senhor parecia com frio.

Ele olhou para o cobertor, depois para o chá.

— Eu não bebo camomila.

— Ajuda a dormir.

— Eu não estava dormindo.

Olhei para a mão dele, ainda fechada com força ao redor da poltrona.

— Não, senhor.

Um som estranho escapou dele — quase uma risada.

Ele estreitou os olhos, me estudando.

— Você discorda?

Próximo Capítulo →

Lista de Capítulos