A corda já tinha rasgado minha pele quando a noiva de Roman Calder se agachou ao meu lado e perguntou, quase com doçura: “Algum último desejo antes de você partir?”

Written by

in

Chapter 2

— Você discorda? — Roman repetiu, os olhos ainda fixos em mim, esperando uma resposta que eu não sabia se devia dar.

— Não é da minha conta discordar, senhor.

— Isso não foi o que eu perguntei.

Respirei fundo, sabendo que qualquer resposta poderia custar meu emprego, mas cansada demais, naquele momento, para fingir submissão total.

— Eu acho que qualquer pessoa que grita “mãe, abaixa” enquanto dorme provavelmente estava sonhando com alguma coisa que ainda dói bastante, senhor. Chame isso do que quiser.

Roman ficou em silêncio por um longo momento, o rosto indecifrável.

— Ninguém fala comigo assim há anos.

— Quer que eu me desculpe?

— Não — ele respondeu, quase surpreso com a própria resposta. — Só quero saber por que você não tem medo de mim como todo mundo aqui tem.

— Eu tenho medo, senhor — admiti, sinceramente. — Só tenho mais medo de perder meu emprego do que de dizer a verdade quando perguntado diretamente.

Um daqueles risos raros escapou dele de novo, mais genuíno dessa vez.

— Nora, certo?

— Sim, senhor.

— Você trabalha aqui há quanto tempo?

— Cinco anos.

— E em cinco anos, ninguém nunca te perguntou nada sobre isso?

Balancei a cabeça, confusa com o rumo inesperado daquela conversa.

— As pessoas geralmente preferem que eu fique invisível, senhor. É mais fácil assim para todo mundo.

Algo mudou na expressão dele, quase imperceptível, mas presente.

— Bom, eu prefiro o contrário — ele disse, se levantando devagar, ainda um pouco tonto do pesadelo. — Comece a falar comigo como uma pessoa normal, Nora. Isso é uma ordem, se ajudar a facilitar.

Sorri, apesar de mim mesma.

— Sim, senhor.

— E leve essa camomila embora — ele completou, fazendo uma careta. — Prefiro café, mesmo tendo acabado de acordar de um pesadelo.

Nas semanas seguintes, algo mudou sutilmente na dinâmica entre nós.

Roman começou a aparecer na cozinha nos horários em que eu preparava as refeições, sentando-se no banco alto perto da bancada, fazendo perguntas casuais sobre minha vida que ele nunca tinha demonstrado curiosidade antes.

— Você tem família? — ele perguntou, numa dessas tardes tranquilas.

— Só meu irmão, Caleb. Ele tem nove anos.

— E os seus pais?

— Morreram num acidente de carro há três anos.

Ele ficou em silêncio por um momento, um respeito genuíno cruzando o rosto dele.

— Sinto muito.

— Obrigada. A gente vai levando.

— Você o cria sozinha?

Assenti, cortando legumes com movimentos automáticos, cansados demais para me emocionar com aquela conversa que eu raramente tinha com alguém.

— Ele parece um bom menino.

— É o melhor menino do mundo — respondi, um sorriso genuíno finalmente escapando. — Está guardando dinheiro secretamente para me fazer uma surpresa, apesar de eu já saber de tudo.

Roman riu, um som que se tornava cada vez menos raro naquelas conversas silenciosas de cozinha.

Foi numa dessas tardes que Evelyn Sterling apareceu, parada na porta, observando aquela cena doméstica com uma expressão que eu não conseguia decifrar completamente na época.

— Roman, querido — ela disse, a voz doce demais para ser genuína. — Não sabia que você gostava tanto de conversar com a equipe da cozinha.

— A Nora não é “a equipe da cozinha”, Evelyn. Ela tem nome.

Um flash de irritação cruzou o rosto perfeitamente maquiado de Evelyn antes de desaparecer completamente.

— Claro, desculpa. Nora.

Ela disse meu nome como quem prova algo desagradável, e naquele momento, senti pela primeira vez um alerta silencioso, um instinto avisando que aquela mulher não gostava nem um pouco do que via.

Nas semanas seguintes, Evelyn passou a aparecer com mais frequência sempre que Roman e eu conversávamos, encontrando desculpas cada vez mais frágeis para interromper, para me mandar de volta ao trabalho, para lembrar Roman de compromissos que muitas vezes nem existiam.

— Ela não gosta de mim — comentei uma vez com a Senhora Whitfield, a governanta mais antiga da casa, enquanto arrumávamos a mesa para o jantar.

— Evelyn Sterling não gosta de ninguém que tire a atenção dela por mais de trinta segundos — a Senhora Whitfield respondeu, baixinho, olhando ao redor para garantir que ninguém mais escutasse. — Tome cuidado, querida. Já vi essa mulher destruir carreiras inteiras por muito menos que umas conversas de cozinha.

Aquele aviso ficou martelando na minha mente durante todo o jantar, enquanto observava Evelyn sentada ao lado de Roman, o sorriso perfeito no rosto dela escondendo algo que eu ainda não conseguia nomear completamente.

O que eu não sabia, naquele momento, era que Evelyn já tinha começado a investigar cada detalhe da minha vida, procurando qualquer coisa que pudesse usar contra mim antes que eu representasse um problema real demais para ela ignorar.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos