A corda já tinha rasgado minha pele quando a noiva de Roman Calder se agachou ao meu lado e perguntou, quase com doçura: “Algum último desejo antes de você partir?”

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Chapter 3

Tudo começou a mudar de verdade numa noite de chuva, quando Roman me pediu para levar um chá até o escritório dele mais tarde do que o normal.

Encontrei a porta entreaberta, e antes de bater, ouvi vozes abafadas vindas de dentro.

— Você precisa assinar os documentos da fusão até sexta-feira, Roman — a voz de Evelyn soou, tensa, diferente do tom doce que ela sempre usava em público. — Meu pai não vai esperar para sempre.

— Eu ainda estou revisando os termos — Roman respondeu, cansado. — Alguma coisa não fecha nos números que vocês apresentaram.

— Os números são exatamente como deveriam ser — Evelyn insistiu, um pouco rápido demais.

Fiquei parada ali, hesitante, sem saber se devia entrar ou voltar mais tarde, quando uma frase da conversa me congelou completamente.

— Seu pai nunca teria aprovado isso — Roman disse, a voz carregada de uma dor antiga. — Ele desconfiava do seu pai muito antes de morrer.

— Seu pai morreu num acidente de carro, Roman. Pare de tentar encontrar conspirações onde não existem.

Algo na forma como ela disse aquilo, rápido demais, defensivo demais, ficou preso na minha mente durante toda a noite.

Eu conhecia aquele tipo de resposta.

Era exatamente como ela tinha reagido, semanas atrás, quando eu mencionei, sem pensar muito, que também tinha perdido os pais num acidente de carro.

Uma expressão que durou apenas um segundo, mas que eu reconheci mais tarde como puro alívio, como se aquilo confirmasse algo que ela precisava verificar.

Naquela noite, não consegui dormir, revirando na cabeça uma lembrança antiga que eu tinha enterrado profundamente havia anos.

Antes de trabalhar para os Calder, eu tinha trabalhado brevemente como assistente administrativa numa pequena empresa de contabilidade que prestava serviços para várias famílias ricas de Baltimore, incluindo, na época, os Sterling.

Lembrei de um arquivo específico que tinha passado pelas minhas mãos, anos atrás, antes de tudo aquilo fazer qualquer sentido: registros de uma transferência bancária suspeita, feita dias antes da morte do pai de Roman, vinda de uma conta controlada pelo pai de Evelyn.

Na época, aquilo não significava nada para mim. Só mais um documento entre centenas que eu arquivava diariamente.

Mas agora, ouvindo aquela conversa tensa, as peças começaram a se encaixar de um jeito que gelava o sangue.

No dia seguinte, tentei descobrir mais, discretamente, perguntando à Senhora Whitfield sobre as circunstâncias da morte do pai de Roman.

— O carro dele saiu da estrada numa noite chuvosa — ela contou, a voz baixa, cuidadosa. — Disseram que os freios falharam. Mas sempre existiram rumores, principalmente porque o carro tinha passado por manutenção completa dias antes.

— Rumores de quê?

— De que alguém queria muito que o velho Calder desaparecesse antes de descobrir alguma coisa sobre os negócios da família Sterling.

Meu coração disparou.

— Você acha que foi um acidente de verdade?

A Senhora Whitfield olhou ao redor, cautelosa, antes de responder.

— Eu acho que essa casa guarda segredos demais para qualquer um de nós ficar seguro fazendo perguntas em voz alta, querida.

Aquela noite, não consegui parar de pensar no arquivo que eu tinha visto anos atrás, tentando lembrar cada detalhe que talvez tivesse esquecido convenientemente com o tempo.

Decidi, contra todo instinto de autopreservação, ligar para minha antiga colega de trabalho na empresa de contabilidade, que ainda mantinha os arquivos antigos digitalizados por questões legais de armazenamento.

— Nora! Nossa, quanto tempo — ela disse, surpresa. — O que você precisa?

— Preciso que você verifique um arquivo antigo para mim. É importante.

Duas horas depois, recebi um email dela contendo a cópia digitalizada exata que eu me lembrava, confirmando cada detalhe da minha memória: uma transferência de duzentos mil dólares, feita três dias antes da morte do pai de Roman, de uma conta controlada diretamente pelo pai de Evelyn Sterling, para um mecânico terceirizado que, coincidentemente, tinha realizado a última manutenção no carro da vítima.

Minhas mãos tremiam ao ler aquilo.

Aquele não era um pagamento comum.

Era, muito provavelmente, prova de uma sabotagem premeditada.

Guardei o arquivo com extremo cuidado, sem saber exatamente o que fazer com aquela informação, temendo tanto as consequências de ficar em silêncio quanto as de revelar tudo sem provas suficientes para uma acusação formal.

O que eu não sabia, naquele momento, era que minha antiga colega, sem qualquer má intenção, tinha mencionado casualmente para outra pessoa da empresa que eu tinha pedido aquele arquivo específico.

E essa informação, de alguma forma, através de conexões que eu jamais conseguiria rastrear a tempo, chegou aos ouvidos exatos que jamais deveriam descobrir que eu sabia de qualquer coisa.

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