Chapter 4
Três dias depois de receber aquele arquivo, saí do meu turno mais cedo, ansiosa para chegar em casa e ver Caleb antes de dormir.
Nunca cheguei.
Um carro escuro parou ao lado do meu, ainda no estacionamento vazio dos funcionários, e antes que eu conseguisse reagir, alguém colocou um pano com um cheiro forte e químico sobre meu rosto.
A escuridão me engoliu quase instantaneamente.
Acordei horas depois, ou talvez dias, sem saber ao certo, deitada no chão frio de concreto de um lugar que eu não reconhecia, o cheiro de maresia e ferrugem sugerindo proximidade com o porto.
Minhas mãos e pés estavam amarrados, e uma dor latejante na cabeça dificultava qualquer pensamento claro.
Evelyn Sterling apareceu na minha linha de visão, impecável como sempre, o contraste entre a elegância dela e a sujeira do galpão quase surreal.
— Finalmente acordou — ela disse, um sorriso frio nos lábios perfeitamente pintados. — Estava começando a ficar entediante esperar.
— O que você quer de mim? — consegui perguntar, a voz rouca e fraca.
— Eu quero saber exatamente quanto você descobriu, e quem mais sabe — ela respondeu, se agachando na minha frente. — E depois, honestamente, eu quero que você desapareça de vez da vida do Roman.
— As pessoas vão notar meu sumiço — falei, tentando qualquer estratégia que me desse tempo. — Meu irmão vai denunciar.
— Seu irmão vai ser informado, com muito pesar, que você fugiu com um homem misterioso, abandonando-o completamente — Evelyn respondeu, casualmente cruel. — Existem cartas já preparadas, testemunhas já compradas. As pessoas acreditam no que é mais fácil de acreditar, Nora. E abandono é sempre mais fácil de engolir do que a verdade.
Aquilo me atingiu com uma dor mais profunda que qualquer amarra apertada em volta dos pulsos.
— Caleb nunca vai acreditar nisso.
— Crianças acreditam no que os adultos dizem, principalmente quando não existe outra explicação disponível — ela respondeu, sem qualquer remorso.
Os dias seguintes se arrastaram numa névoa de fome, sede e desespero crescente.
Evelyn aparecia esporadicamente, sempre fazendo as mesmas perguntas, sempre recebendo o mesmo silêncio teimoso de mim, apesar do medo crescente que consumia cada célula do meu corpo.
— Por que você simplesmente não conta o que eu quero saber? — ela perguntou, na quinta ou sexta visita, a paciência dela finalmente começando a se desgastar.
— Porque, no fundo, você sabe que eu tenho razão sobre o que aconteceu com o pai do Roman — respondi, encontrando uma força que eu nem sabia que ainda possuía. — E isso te apavora mais do que qualquer coisa que eu possa fazer amarrada nesse chão.
Sua expressão vacilou por uma fração de segundo, confirmando exatamente o que eu suspeitava.
No sexto dia, extremamente fraca, ouvi passos diferentes se aproximando, mais silenciosos, mais cuidadosos do que os saltos altos costumeiros de Evelyn.
Ela chegou pouco depois, uma tensão diferente em seus movimentos, verificando repetidamente o celular.
— O Roman está perguntando questões demais sobre seu sumiço — ela murmurou, mais para si mesma do que para mim. — Vou precisar encerrar isso logo.
O terror gelado que atravessou meu corpo foi imediato e absoluto.
— Encerrar como? — perguntei, a voz tremendo.
Ela não respondeu diretamente, apenas se agachou ao meu lado com aquele sorriso frio de sempre, os brincos de diamante brilhando sob a única lâmpada pendurada acima de nós.
— Algum último desejo antes de você partir? — ela perguntou, quase com doçura, como se estivesse oferecendo um último capricho gentil em vez de uma sentença de morte.
Forcei meus lábios rachados a se moverem, pensando em Caleb, na latinha de moedas debaixo do travesseiro, nas centenas de bilhetes guardados naquela caixa de sapato.
— Diz para o Caleb…
Minha voz falhou, o corpo esgotado demais para continuar.
— Diz para ele que eu não o abandonei.
Pela primeira vez, o sorriso de Evelyn se tornou genuíno, cruel na própria satisfação.
— Ai, querida — ela disse, se levantando devagar. — Até amanhã, todo mundo vai acreditar que você abandonou, sim.
Nenhuma de nós duas percebeu a sombra que tinha se formado sob a porta de aço do galpão nos últimos minutos.
Nenhuma de nós ouviu o exato momento em que uma mão gelada e determinada se encostou silenciosamente do outro lado daquele metal frio, cada palavra daquela conversa entranhada, palavra por palavra, na mente do homem que esperava, com uma fúria contida, o momento certo para agir.
