Chapter 3
Nas horas seguintes, minha casa gelada se transformou de um jeito que eu não conseguia processar completamente — aquecedores novos zumbindo em cada cômodo, uma geladeira cheia de comida de verdade, cobertores grossos o suficiente para finalmente aquecer as crianças por completo.
Peter observava tudo com os olhos arregalados, segurando ainda mais forte a irmã pequena, como se tivesse medo de que aquilo fosse desaparecer a qualquer momento.
Clara, por outro lado, seguia Vincent pela casa com uma curiosidade cautelosa, fazendo perguntas que eu nunca teria coragem de fazer.
“Você conheceu meu pai de verdade?” — ela perguntou, parada ao lado dele enquanto os homens terminavam de instalar o segundo aquecedor.
Vincent se agachou até ficar na altura dos olhos dela, algo suave transformando completamente sua expressão normalmente severa.
“Conheci, sim,” ele respondeu. “Seu pai era um homem bom. Trabalhava duro, tratava todo mundo com respeito, mesmo quando não precisava.”
“Ele nunca falou sobre você,” Clara disse, a desconfiança típica de uma criança que já tinha perdido demais.
“Isso não me surpreende,” Vincent respondeu. “Seu pai tomou uma decisão, há alguns anos, de deixar esse mundo para trás e construir algo próprio, longe de mim e dos negócios que eu administro.”
“Que tipo de decisão?” — Clara insistiu, e eu me aproximei, igualmente curiosa sobre a resposta.
Vincent se levantou, olhando diretamente para mim antes de responder. “Há oito anos, um dos meus rivais tentou me matar. Daniel estava por perto, trabalhando naquela construção, e viu o ataque acontecendo.”
Meu estômago se apertou, uma sensação estranha de estar ouvindo sobre uma vida completamente diferente do homem que eu tinha amado.
“Ele podia ter fugido,” Vincent continuou. “Ninguém esperaria que ele interviesse. Mas Daniel me empurrou para fora do caminho da bala.”
O silêncio que se seguiu foi absoluto, apenas o zumbido baixo dos aquecedores preenchendo o ar.
“Ele nunca me contou isso,” sussurrei, sentindo lágrimas ameaçando escapar.
“Eu não fiquei surpreso,” Vincent disse. “Daniel me disse, naquela mesma noite, que não queria fazer parte desse mundo. Que tinha acabado de conhecer uma mulher incrível e queria construir uma vida diferente para ela.”
“Comigo,” entendi, a voz embargada.
“Com você,” Vincent confirmou. “Eu ofereci proteção, dinheiro, qualquer coisa que ele quisesse em troca de salvar minha vida. Ele só pediu uma coisa.”
“O quê?” — perguntei, mal conseguindo respirar.
“Que eu nunca interferisse na vida nova que ele estava construindo, a menos que fosse absolutamente necessário,” Vincent respondeu. “Ele queria construir algo próprio, sem depender da minha sombra.”
Aquilo explicava tanto sobre Daniel — sua recusa obstinada em aceitar ajuda de qualquer tipo, seu orgulho silencioso mesmo quando as coisas ficaram desesperadoras nos últimos meses.
“Então por que você está aqui agora?” — perguntei. “Se ele pediu para você ficar longe?”
Vincent olhou ao redor da casa, para as crianças, para a evidência clara de meses de sofrimento silencioso. “Porque Daniel morreu, e a promessa dele de construir algo sozinho morreu com ele. Mas a promessa que eu fiz a ele, de proteger o que era importante para ele, ainda está viva.”
As palavras dele carregavam um peso de honra genuína que eu não esperava encontrar num homem com sua reputação.
“E o Ambrose Ward?” — perguntei, lembrando da ameaça iminente. “Como ele descobriu sobre nossa dívida?”
O rosto de Vincent se enrijeceu instantaneamente. “Essa é uma pergunta muito boa. E eu pretendo descobrir a resposta antes de sexta-feira.”
Foi então que o celular dele vibrou, e ao olhar a tela, algo escuro cruzou sua expressão.
“O que foi?” — perguntei, o medo antigo voltando rapidamente.
“Ambrose sabe que estou aqui,” Vincent disse, guardando o celular com um movimento controlado, mas tenso. “E ele não está feliz.”
