Chapter 5
O plano surgiu de um jeito que nenhum dos dois esperava — através de um convite formal, entregue por um mensageiro nervoso, pra um jantar beneficente organizado por Randall Voss em pessoa.
— Isso é uma armadilha — falei, olhando o convite caro na mesa da cozinha.
— Obviamente.
— E você vai aceitar mesmo assim?
— Recusar seria admitir medo. E eu não posso me dar ao luxo disso, especialmente agora.
— Então eu vou com você.
— Lily.
— Não. Dessa vez eu não vou ficar esperando em casa enquanto você entra numa sala cheia de gente que quer te ver morto.
Gabriel encarou meus olhos por um longo momento, provavelmente medindo o quanto de argumento valeria a pena gastar.
— Se você for, segue exatamente minhas instruções. Sem exceções.
— Combinado.
A noite do evento chegou vestida de seda e tensão. O salão de festas de Voss brilhava com luxo ostentoso, o tipo de riqueza que gritava insegurança em vez de confiança.
Randall Voss em pessoa era menor do que eu esperava, mas os olhos carregavam uma frieza que nenhuma estatura conseguiria disfarçar.
— Gabriel Mercer — disse ele, apertando a mão dele com força calculada. — E a nova senhora Mercer. Que honra.
— Randall — respondeu Gabriel, o tom cortês demais pra ser genuíno.
— Espero que a proposta de sexta-feira ainda esteja na mesa.
— A proposta continua a mesma de sempre: você recua, e eu esqueço que essa conversa toda aconteceu.
Voss sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos, exatamente como eu tinha visto em tantos rostos perigosos naquele mundo novo.
— Vamos discutir isso depois do jantar, então. Enquanto isso, aproveitem a festa.
A noite avançou entre conversas educadas e olhares calculados, até que precisei ir ao banheiro e me vi sozinha, longe de Gabriel pela primeira vez desde que tínhamos chegado.
Foi ali, no corredor vazio perto dos banheiros, que um homem que eu nunca tinha visto se aproximou, o sorriso gentil demais pra ser confiável.
— Senhora Mercer, certo? — perguntou ele.
— Sim.
— Randall gostaria de falar com a senhora, a sós, sobre um assunto delicado.
Meu instinto gritou perigo antes mesmo de eu processar as palavras direito.
— Prefiro esperar meu marido.
— É rápido, prometo. Envolve a segurança da sua família.
Aquilo me pegou pela única fraqueza que eu não conseguia ignorar.
Segui o homem até um escritório afastado, onde Randall Voss esperava sozinho, sem o sorriso educado de antes.
— Senhora Mercer. Que bom que aceitou conversar.
— O que você quer?
— Quero que você convença seu marido a desistir da aquisição. Antes que as coisas fiquem feias de verdade.
— Você está me ameaçando?
— Estou te dando uma chance que Gabriel não teve a sabedoria de aceitar.
A porta se abriu com força atrás de mim antes que eu pudesse responder, e Gabriel entrou, o rosto transformado numa fúria controlada que eu nunca tinha visto nele.
— Afaste-se da minha esposa, Randall.
— Estávamos só conversando, Gabriel. Nada além disso.
— Você a atraiu pra cá sozinha, contra todo protocolo de segurança da noite. Isso não é conversa, é ameaça.
Voss ergueu as mãos, num gesto de falsa rendição.
— Calma, calma. Ninguém encostou um dedo nela.
— Ainda — respondeu Gabriel, a voz baixa e perigosa.
Ele me puxou gentilmente pra trás dele, posicionando o próprio corpo entre mim e Voss.
— Isso acaba hoje, Randall. Ou você recua definitivamente, ou eu paro de tratar isso como negócio e começo a tratar como o que realmente é.
— Está me ameaçando na minha própria casa?
— Estou te avisando pela última vez.
Os seguranças de Gabriel apareceram na porta segundos depois, e Voss, percebendo a vantagem numérica perdida, recuou com um sorriso amargo.
— Isso não terminou, Gabriel.
— Terminou pra mim. A partir de agora, qualquer aproximação da minha família será tratada como declaração de guerra.
Saímos do escritório em silêncio tenso, e só quando estávamos dentro do carro, longe da mansão de Voss, Gabriel finalmente respirou fundo.
— Eu quase te perdi lá dentro.
— Ele só queria falar.
— Ele queria te usar como refém emocional, Lily. E funcionou por alguns minutos, porque você não sabia o suficiente pra reconhecer o perigo.
— Então me ensina.
— O quê?
— Me ensina a reconhecer, Gabriel. Eu não posso proteger nada se continuar sendo mantida no escuro.
Ele segurou minha mão com força, os dedos tremendo levemente — a primeira vez que eu via medo genuíno nele.
— Eu tive tanto medo de te perder hoje.
— Eu também tive medo. Mas ainda estou aqui.
— Isso não pode acontecer de novo.
— Então não me deixe de fora da próxima vez.
