Chapter 3
O jardim das rosas, às sete da manhã, ainda carregava o orvalho da noite.
Gabriel estava lá antes de mim, sentado num banco de pedra, o paletó dobrado ao lado, olhando pra propriedade como um homem que carregava mais peso nos ombros do que deixava transparecer.
— Você veio — disse ele, sem se virar.
— Eu disse que viria.
— Você poderia ter mudado de ideia durante a noite.
— Eu quase mudei três vezes.
Isso o fez sorrir, um sorriso cansado, diferente de qualquer expressão que eu tinha visto nele até então.
— E o que te fez continuar decidida a vir?
— Curiosidade — respondi, repetindo a palavra do dia anterior. — E o fato de que meu pai não parou de sorrir a noite inteira depois da sua oferta.
— A oferta pela empresa foi genuína, Lily. Independente da sua resposta hoje.
— Eu sei.
Sentei ao lado dele no banco, mantendo uma distância cuidadosa que nenhum dos dois parecia querer de verdade.
— Me conta a parte que você não contou ontem — pedi.
Gabriel ficou em silêncio por um momento, os dedos batendo de leve no joelho, um gesto nervoso que contrastava com tudo que eu tinha visto dele até ali.
— Meu pai construiu um império que não distingue muito bem entre negócio legítimo e negócio… menos legítimo. Quando ele morreu, há dois anos, eu herdei os dois lados, junto com inimigos que meu pai nunca me contou que existiam.
— E a empresa do meu pai entra nisso como?
— Um dos meus concorrentes descobriu que eu estava negociando a aquisição. Ele quer a mesma coisa, mas por motivos bem menos honestos — lavagem de dinheiro através das propriedades hoteleiras.
— Meu pai não sabe disso.
— Seu pai não precisa saber dos detalhes. Só precisa estar protegido o suficiente pra nunca precisar descobrir.
Olhei pras rosas ao redor, vermelhas demais pra aquela conversa.
— E casar comigo faz isso.
— Casar com você torna público que sua família está sob minha proteção direta. Ninguém, nem meu concorrente mais desesperado, mexe com isso sem consequências que ele não está disposto a pagar.
— Isso é romântico do jeito mais estranho possível.
Gabriel riu, um som real dessa vez, sem a máscara de controle.
— Eu avisei que não seria uma proposta convencional.
— E se eu disser sim? O que muda pra mim, além de proteção?
— Você vira minha esposa. Com tudo que isso implica — presença pública, responsabilidades, e sim, perigo real, porque proximidade comigo nunca é completamente segura.
— Você está tentando me convencer ou me afastar?
— Estou tentando ser honesto, porque você merece isso antes de decidir.
Fiquei quieta, sentindo o peso genuíno por trás da pergunta.
— E o que você ganha com isso, além de proteger meu pai?
Gabriel se virou pra me encarar direto pela primeira vez naquela manhã.
— Eu ganho alguém que me olhou nos olhos ontem e não teve medo. Isso, Lily, é mais raro do que qualquer contrato que eu já assinei.
— Isso não é motivo suficiente pra um casamento.
— Não é motivo suficiente pra um casamento comum. Mas talvez seja o único motivo honesto que eu tenho pra oferecer.
Respirei fundo, sentindo o orvalho molhar de leve a barra do meu vestido.
— Eu tenho condições.
Uma sobrancelha se levantou, quase divertida.
— Estou ouvindo.
— Sem mentiras entre nós. Mesmo quando a verdade for perigosa.
— Aceito.
— E eu quero saber, de verdade, no que estou me metendo. Não versões suavizadas pra me proteger.
Gabriel hesitou, mas assentiu.
— Vai ser difícil de ouvir algumas vezes.
— Prefiro difícil de ouvir do que fácil de me enganar.
Ele estendeu a mão, não pra tocar, mas num gesto formal, quase solene.
— Então, Lily Bennett. Você aceita se casar comigo?
Olhei pra mão estendida, pro homem que tinha acalmado um cavalo furioso com paciência impossível, que tinha sido honesto o suficiente pra admitir perigo em vez de esconder, e que, de alguma forma, em menos de vinte e quatro horas, tinha se tornado a decisão mais importante da minha vida.
— Aceito.
O aperto de mão durou mais do que qualquer aperto de mão deveria durar.
— Uma última coisa — falei, antes que ele soltasse minha mão.
— Diga.
— Da próxima vez que eu perguntar se posso tocar em você, a resposta melhor ser sim direto, sem “ainda não”.
Gabriel riu de verdade, um som que ecoou pelo jardim inteiro, espantando os pássaros dos arbustos próximos.
— Combinado.
O casamento foi marcado pra três semanas depois — rápido demais pros padrões da minha mãe, perfeito demais pros planos silenciosos de Gabriel, e aterrorizante o suficiente pra mim pra encher as noites seguintes de dúvidas que eu escondia atrás de sorrisos ensaiados.
Na noite anterior à cerimônia, Gabriel apareceu na casa dos meus pais, contra todas as tradições, pedindo pra falar comigo a sós no jardim de inverno.
— Amanhã tudo muda — disse ele, sem rodeios.
— Eu sei.
— Preciso que você entenda uma coisa antes de dizer sim diante de todo mundo.
— O quê?
— A partir de amanhã, você não é só minha esposa. Você é um alvo visível pra qualquer pessoa que queira chegar até mim.
— Você já me disse isso.
— Eu preciso ter certeza de que você realmente entendeu, Lily. Não é hipotético. É real, e pode ser em breve.
Segurei a mão dele, sentindo o mesmo pulso acelerado de dias atrás.
— Eu entendi no estábulo, Gabriel. Entendi cada palavra que você disse desde então. E ainda assim estou aqui.
Ele levou minha mão até os lábios, um gesto tão inesperadamente terno que quase apagou todo o medo instalado no meu peito.
— Então amanhã eu prometo proteger você com tudo que tenho.
— E eu prometo não fugir na primeira vez que as coisas ficarem difíceis.
— Isso é mais do que a maioria das pessoas na minha vida jamais me prometeu.
No dia seguinte, diante de cinquenta convidados cuidadosamente selecionados e o dobro de seguranças discretamente posicionados, eu me tornei Lily Mercer.
