Chapter 2
O sorriso de Gabriel Mercer não era o sorriso de um homem prestes a dizer não.
— Não — falou ele, finalmente. — Isso não é um não.
Meu coração pulou de um jeito que eu não soube explicar.
— Então é um sim?
— É um “ainda não”, Lily.
Ele deu um passo à frente, e de repente a distância entre nós dois parecia menor do que qualquer distância deveria ser dentro de um estábulo.
— Existem regras — continuou ele — sobre o que um homem como eu pode permitir que aconteça num momento como esse.
— Que regras?
— A primeira é que eu nunca deveria ter gostado da pergunta que você fez.
Senti o rosto pegar fogo de novo.
— E a segunda?
— A segunda é que eu estou prestes a quebrar as duas.
Ele esticou o braço, devagar, como se estivesse dando tempo pra eu recuar.
Eu não recuei.
Meus dedos tocaram o antebraço dele, e a resposta veio imediata: nada de fraude na camisa. Só músculo firme, pele quente, e um pulso batendo rápido demais pra um homem tão calmo por fora.
— Satisfeita? — perguntou ele, a voz mais baixa.
— Curiosa.
— Isso é perigoso, Lily Bennett.
— O quê, curiosidade?
— Você, perto de mim.
Antes que eu pudesse responder, uma voz chamou lá de fora do estábulo — minha mãe, claramente organizando uma busca educada.
— Lily? Lily, querida, onde você se meteu?
Gabriel recuou o braço, mas os olhos continuaram presos nos meus.
— Sua mãe está preocupada.
— Minha mãe está calculando quantos convidados cabem no salão de um casamento hipotético.
Ele riu — um som curto, genuíno, muito diferente da diversão controlada de antes.
— Ela não está errada em se apressar.
— Como assim?
Gabriel hesitou pela primeira vez desde que eu tinha entrado ali.
— Eu vou fazer uma proposta pro seu pai hoje à noite. Sobre a empresa dele.
— Isso eu já sabia.
— Vou fazer duas propostas, Lily.
O ar pareceu sumir do estábulo inteiro.
— Gabriel…
— Eu sei como isso soa. Loucura. Repentino. Você mal me conhece.
— Você mal me conhece.
— Eu sei o suficiente.
— Sabe o quê exatamente?
Ele deu um passo atrás, passando a mão pelo cabelo, num gesto que quebrava toda a compostura de minutos atrás.
— Sei que você entrou nesse estábulo sozinha, sem medo, quando três homens armados ficaram parados olhando. Sei que você perguntou se podia tocar no meu braço em vez de fingir que não estava olhando, como toda mulher que já sentou naquela mesa de almoço fingiu a manhã inteira. E sei que preciso de uma esposa até o fim do mês, por motivos que não posso explicar agora.
— Motivos que não pode explicar.
— Ainda não.
Cruzei os braços, tentando parecer mais firme do que me sentia.
— Isso é sobre negócio, então. Não sobre mim.
— É sobre proteção, Lily. Sua e da sua família.
— Proteção de quê?
Gabriel olhou pra porta do estábulo, como se pudesse ver através da madeira até o jardim onde minha mãe continuava chamando meu nome.
— Existem pessoas interessadas na aquisição da empresa do seu pai. Pessoas menos… civilizadas do que eu.
— E casar comigo resolve isso como?
— Meu nome ao lado do seu torna vocês intocáveis. Ninguém mexe com a família de Gabriel Mercer.
— Isso soa como uma ameaça disfarçada de proposta.
— É uma proteção disfarçada de proposta. A ameaça já existe, com ou sem mim.
Fiquei em silêncio, processando cada palavra, tentando separar o que era verdade do que era conveniente.
— Meu pai sabe disso?
— Vai saber hoje à noite.
— E se eu disser não?
Gabriel se aproximou de novo, mais devagar dessa vez, como tinha feito com Atlas minutos antes.
— Então eu ainda vou proteger sua família, Lily. Só que sem o benefício de te ter por perto enquanto faço isso.
Aquilo doeu de um jeito que eu não esperava.
— Você mal me conhece — repeti, mais pra mim mesma dessa vez.
— Eu sei. Mas quero conhecer. E isso, pra mim, já é mais do que eu esperava sentir esse verão inteiro.
Minha mãe apareceu na entrada do estábulo, ofegante, o vestido de linho amassado pela pressa.
— Lily! Meu Deus, o que você está fazendo aqui dentro, cheia de… — ela parou, olhando de mim pra Gabriel, e o tom mudou instantaneamente. — Senhor Mercer! Que surpresa maravilhosa.
— Senhora Bennett — respondeu ele, educado, a máscara de controle voltando ao lugar como se nunca tivesse saído. — Eu estava mostrando pra sua filha como acalmar um cavalo assustado.
— Que gentileza a sua.
— Na verdade, eu gostaria de conversar com o senhor Bennett hoje à noite, se possível. Um assunto de negócios.
Minha mãe praticamente vibrou de excitação.
— Claro, claro, ele vai adorar.
Gabriel se despediu com um aceno curto, os olhos passando por mim uma última vez antes de sair do estábulo — um olhar que dizia mais do que qualquer palavra tinha dito nos últimos dez minutos.
Minha mãe me puxou pelo braço, sussurrando excitada sobre “conexões” e “oportunidades”, enquanto eu ainda sentia o calor da pele dele nos meus dedos.
Naquela noite, no jantar formal da propriedade, Gabriel fez a proposta pro meu pai diante de toda a mesa — não a de casamento, ainda, mas a da aquisição, generosa o suficiente pra deixar meu pai emocionado e minha mãe radiante.
Foi só depois da sobremesa, quando os outros convidados já tinham se dispersado pro terraço, que Gabriel se aproximou de mim discretamente.
— Amanhã de manhã — sussurrou ele. — No jardim das rosas. Só nós dois.
— Pra quê?
— Pra você decidir se aceita a segunda proposta.
Ele se afastou antes que eu pudesse responder, deixando só o eco da pergunta pairando entre nós feito uma promessa perigosa demais pra ignorar.
