A primeira coisa que eu perguntei pra Gabriel Mercer foi se eu podia tocar nele.

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Chapter 4

A mansão dos Mercer, em Westchester, era maior do que qualquer lugar que eu já tinha morado — e mais silenciosa do que qualquer lugar deveria ser.

Nas primeiras semanas, aprendi as regras não ditas daquela casa uma de cada vez, geralmente da pior forma possível.

Regra um: nunca perguntar aos seguranças aonde Gabriel tinha ido.

Aprendi isso quando perguntei ao Marcus, o chefe de segurança, e recebi um silêncio tão desconfortável que decidi nunca mais repetir a pergunta.

Regra dois: o escritório no terceiro andar era proibido, mesmo pra mim.

Aprendi isso quando tentei entrar pra deixar um bilhete e encontrei a porta trancada com um sistema de segurança que nenhuma outra porta da casa tinha.

Regra três: certas ligações de Gabriel exigiam que ele saísse pra o jardim, mesmo no frio, mesmo de madrugada.

Essa eu aprendi observando pela janela do quarto, três noites diferentes, sem nunca conseguir ouvir uma palavra do que era dito.

— Você está me espionando, Lily Mercer? — perguntou ele, numa dessas noites, aparecendo silenciosamente atrás de mim enquanto eu observava pela janela.

Quase deixei cair a xícara de chá.

— Eu estava só… admirando o jardim.

— Às duas da manhã.

— É quando as rosas ficam mais bonitas.

Gabriel sorriu, mas o cansaço nos olhos dele contava outra história.

— Foi meu concorrente de novo. Randall Voss.

Era a primeira vez que ele mencionava o nome diretamente.

— O que ele quer agora?

— O que ele sempre quis. Que eu desista da aquisição da empresa do seu pai, ou que eu pague um preço que ele considera “razoável” pra deixar vocês em paz.

— E você vai pagar?

— Eu não negocio com chantagem, Lily.

— Isso parece perigoso.

— É perigoso. Mas ceder seria pior — abriria precedente pra qualquer um tentar a mesma coisa.

Sentei na cama, puxando o roupão mais apertado ao redor do corpo.

— Você prometeu sem mentiras.

— E eu não estou mentindo.

— Então me conta tudo sobre Randall Voss.

Gabriel hesitou, sentando ao meu lado, os ombros pesados de um jeito que eu ainda não tinha visto.

— Ele era sócio do meu pai antigamente. Quando meu pai morreu, Voss achou que uma parte do império deveria ser dele, por “direito histórico”. Eu discordei.

— E desde então?

— Desde então ele tenta recuperar o que acha que é dele, de qualquer forma que consiga.

— Incluindo ameaçar minha família.

— Incluindo isso, sim.

Segurei a mão dele, sentindo a tensão nos músculos que eu já conhecia bem demais.

— O que podemos fazer?

— Nós não vamos fazer nada, Lily. Eu vou lidar com isso.

— Nós somos casados, Gabriel. “Nós” inclui os dois.

Ele me encarou por um longo momento, algo mudando na expressão dele.

— Você realmente quer se envolver nisso?

— Eu já estou envolvida. A pergunta é se você vai me deixar ajudar ou vai continuar me protegendo de longe até um dia esquecer de me contar algo importante demais.

— Isso é injusto.

— Isso é honesto. Você mesmo pediu isso de mim.

Gabriel suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Voss tem um encontro marcado com meus advogados na sexta-feira. Uma última tentativa de negociação antes de as coisas ficarem mais… diretas.

— Diretas como?

— Como em, ele já ameaçou publicamente que “acidentes acontecem com famílias desprotegidas”.

O sangue gelou nas minhas veias.

— Ele está falando da minha família.

— Está falando de qualquer coisa que eu ame, Lily. Incluindo você agora.

Fiquei em silêncio, absorvendo o peso real daquelas palavras pela primeira vez desde o casamento.

— Eu quero estar naquela reunião de sexta.

— Não.

— Gabriel.

— Não, Lily. Isso não é negociável. Voss é perigoso, imprevisível, e eu não vou arriscar você numa sala com ele.

— Então o que eu faço enquanto isso acontece? Fico esperando em casa, sem saber de nada, igual todo mundo espera que eu faça?

— Você fica segura. Isso é o suficiente por enquanto.

Aquilo doeu, mas eu entendi o medo por trás da recusa.

— Prometa uma coisa então.

— O quê?

— Prometa que vai me contar tudo depois, sem suavizar.

— Prometo.

Na sexta-feira, esperei na mansão inteira sozinha, o relógio andando devagar demais, cada carro que passava na estrada principal me fazendo correr até a janela.

Gabriel voltou às oito da noite, o rosto tenso, um corte pequeno acima da sobrancelha que ele tentou disfarçar antes de eu ver.

— O que aconteceu com seu rosto?

— Voss trouxe segurança extra. As coisas ficaram tensas.

— Tensas como em, alguém bateu em você?

— Tensas como em, um dos homens dele tentou intimidar em vez de negociar, e meus seguranças responderam.

— Gabriel.

— Ninguém morreu, Lily. Isso já é um bom dia nesse mundo.

Toquei o corte acima da sobrancelha dele, o mesmo gesto de cuidado que eu queria ter tido no estábulo, meses atrás.

— Isso não vai parar, vai?

— Não até um dos dois lados desistir completamente.

— E você não vai desistir.

— Não posso. Desistir agora significa provar pra Voss e pra qualquer outro que ameaças funcionam contra mim.

— Então precisamos de outro plano.

Gabriel olhou pra mim, surpreso.

— Nós de novo?

— Eu disse que estava dentro disso, Gabriel. Falei sério.

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