Aceitei cuidar de um viúvo de oitenta anos porque eu precisava desesperadamente do dinheiro

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Chapter 5

Os dias seguintes foram tensos, como se a casa inteira estivesse segurando a respiração.

— O senhor acha que ele vai tentar alguma coisa? — perguntei, enquanto arrumava os remédios na mesinha ao lado da poltrona dele.

— Ricardo sempre soube o que queria — respondeu o seu Ernesto. — E ele quer essa casa vendida antes que eu morra, não depois.

— Isso é uma coisa terrível de se dizer sobre o próprio filho.

— É uma coisa terrível de se saber sobre o próprio filho — ele corrigiu, com tristeza na voz.

Naquela mesma semana, cheguei em casa e encontrei meu marido sentado na sala, esperando por mim, coisa que não acontecia havia meses.

— Precisamos conversar — disse ele, assim que entrei.

O coração disparou.

— Sobre o quê?

— Sobre nós. Sobre… o que eu andei fazendo.

Ele contou tudo. O nome dela era Beatriz, colega de trabalho, começou “sem querer” há quatro meses, ele “não sabia como parar”, ele “nunca quis me machucar”.

Eu ouvi cada palavra em silêncio, sentindo estranhamente menos dor do que eu imaginava sentir.

— Você não parece surpresa — ele disse, quase ofendido.

— Eu não estou — respondi. — Só estou… cansada.

— Cansada de quê?

— De fingir que ainda somos alguma coisa, quando faz meses que somos só duas pessoas dividindo um endereço.

Ele não teve resposta pra isso.

Naquela noite, deitada, olhando pro teto, pensei em cada palavra que o seu Ernesto tinha me dito nas últimas semanas.

Sobre andar devagar. Sobre a pior solidão que existe. Sobre escolher a própria consciência, mesmo quando dói.

Na tarde seguinte, cheguei à mansão e encontrei o seu Ernesto sentado sozinho, olhando pela janela, com um envelope lacrado em cima do colo.

— O que é isso? — perguntei.

— Meu testamento — ele respondeu, sem me olhar. — Refeito ontem à noite, com meu advogado.

Senti um arrepio.

— Por quê agora?

— Porque Ricardo vai voltar amanhã, com um advogado dele, tentando provar que eu não tenho mais capacidade de decidir sozinho sobre minha própria vida.

— Isso é loucura.

— É desespero — ele corrigiu. — E desespero faz as pessoas fazerem coisas terríveis.

No dia seguinte, Ricardo voltou, exatamente como o pai tinha previsto. Dessa vez, com um homem de terno escuro ao lado, carregando uma pasta cheia de papéis.

— Pai, esse é o Dr. Almeida — disse Ricardo, sem cumprimentar ninguém. — Ele está aqui pra avaliar sua situação.

— Minha situação está ótima — respondeu o seu Ernesto, sentado ereto na poltrona.

— Você contratou uma desconhecida pra viver dentro da sua casa — disse Ricardo, olhando pra mim. — Alterou documentos importantes sem consultar a família. Isso não parece a atitude de um homem em plena capacidade.

— Alterei meu testamento porque é um direito meu — respondeu o seu Ernesto, sem alterar a voz. — E contratei a Laura porque preciso de ajuda, já que meus filhos vivem a milhares de quilômetros e aparecem uma vez por ano.

— Você está sendo manipulado — insistiu Ricardo, olhando pra mim com puro desprezo. — Ela viu uma oportunidade e agarrou.

Aquilo me atingiu como um tapa.

— Eu nunca pedi nada a esse homem além do meu salário — falei, a voz tremendo de raiva. — E se o senhor conhecesse seu pai de verdade, saberia que ele é esperto demais pra ser manipulado por qualquer um.

Ricardo me encarou, surpreso com a firmeza da minha resposta.

O seu Ernesto, pela primeira vez em dias, sorriu.

— Ricardo — disse ele, calmamente — chame quantos advogados quiser. Mas escute bem: essa casa, esse testamento e essa vida são meus. E vão continuar sendo, até o último dia que eu respirar.

— Você vai se arrepender disso, pai.

— Já me arrependi de muita coisa na vida, meu filho — respondeu o seu Ernesto, com os olhos marejados. — Mas nunca vou me arrepender de finalmente escolher viver o resto dos meus dias em paz.

Ricardo ficou ali, parado, sem resposta, até finalmente pegar a pasta de volta das mãos do advogado.

— Isso não terminou — disse, antes de sair.

Mas, pela primeira vez, a ameaça dele soou vazia.

Porque o seu Ernesto, sentado naquela poltrona, parecia mais forte do que em qualquer outro dia desde que eu tinha chegado àquela casa.

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