Chapter 3
Fiquei em silêncio, esperando ele continuar.
O seu Ernesto segurava a fotografia com as duas mãos, como se aquilo pudesse quebrar a qualquer momento.
— Há quinze anos — começou ele — eu descobri que meu sócio, um homem em quem eu confiava como a um irmão, estava desviando dinheiro da empresa que construímos juntos. Não foi pouco. Foi o suficiente pra destruir tudo o que levamos vinte anos pra construir.
— E o senhor o denunciou? — perguntei.
— Denunciei — ele disse. — E ele foi preso.
Fiz uma pausa, sem entender ainda onde estava o problema.
— O nome dele era Otávio — continuou o seu Ernesto. — E ele era o padrinho do meu filho mais velho. Praticamente um tio pras crianças.
Senti um nó no estômago.
— Minha esposa me implorou pra eu resolver aquilo em silêncio. Pra proteger a família dele, os filhos dele, a reputação de todo mundo. Ela dizia que eu podia recuperar o dinheiro sem precisar destruir a vida do homem.
— E o senhor não aceitou.
— Não aceitei — ele confirmou, com a voz firme. — Fiz o que era certo aos meus olhos. Mas o preço foi alto demais.
— O que aconteceu?
— Otávio se matou na cadeia, três meses depois — disse o seu Ernesto, sem desviar o olhar de mim. — E minha esposa nunca me perdoou por isso. Ela dizia que eu tinha escolhido a minha própria consciência no lugar da nossa família.
O silêncio que se seguiu pesou sobre o jardim inteiro.
— Meus filhos cresceram ouvindo a versão dela — continuou ele. — Que o pai deles era um homem frio, cheio de princípios, que preferiu ver um amigo morrer a fechar os olhos pra um erro.
— E o senhor nunca contou o lado do senhor pra eles?
— Tentei, no começo. Mas eles já tinham escolhido de que lado estar.
Ele guardou a fotografia dentro do bolso do casaco, devagar.
— Minha esposa morreu há oito anos ainda achando que eu tinha errado. E meus filhos foram embora um por um, cada um pro seu canto do mundo, carregando a mesma história.
— O senhor nunca pensou em ir atrás deles? Explicar de novo?
— Já tentei tantas vezes que perdi a conta — ele disse, com um sorriso triste. — Mas tem gente que prefere carregar a raiva a soltar ela.
Fiquei ali, olhando pro homem à minha frente, e pela primeira vez entendi por que aquela casa enorme parecia tão vazia.
Não era só o tamanho dela.
Era o peso de tudo que tinha acontecido dentro dela.
— Por que está me contando isso agora? — perguntei, baixinho.
Ele me olhou com aqueles olhos cinzentos, e dessa vez havia algo diferente neles. Algo mais suave.
— Porque você me lembra de alguém que também escolheu fazer a coisa certa, mesmo quando doía.
— Eu?
— Você continua indo pra casa toda noite, voltando pra um casamento que já não te aquece, porque acha que é isso que se espera de você. Mas eu vejo o preço que isso está te custando, Laura. Vejo nos seus olhos.
Aquilo me pegou de jeito.
— O senhor não me conhece o suficiente pra dizer isso.
— Talvez não — ele concordou. — Mas conheço a solidão o bastante pra reconhecê-la em outra pessoa.
Levantei da cadeira, sentindo os olhos arderem.
— Preciso ir organizar os remédios do senhor — falei, tentando fugir daquela conversa.
Ele não me impediu.
Mas quando cheguei à porta da cozinha, ouvi a voz dele atrás de mim.
— Laura.
Virei.
— Obrigado por me deixar contar essa história depois de tantos anos calado.
Assenti, sem conseguir dizer nada.
Naquela noite, ao voltar pra casa, encontrei um envelope em cima da mesa da cozinha, com o nome do meu marido escrito na frente por uma letra que eu não reconhecia.
Ele não estava em casa.
E quando finalmente chegou, horas depois, cheirando a um perfume que não era o dele, eu já sabia que a nossa conversa daquela noite seria diferente de todas as outras.
