Chapter 4
— Onde você estava? — perguntei, tentando manter a voz calma.
— Trabalhando — ele respondeu, sem me olhar nos olhos.
— Até essa hora?
— Teve uma reunião que estendeu.
Fiquei parada, olhando pra ele, sentindo cada palavra saindo da boca dele como uma mentira mal costurada.
— Recebeu um envelope hoje — falei, apontando pra mesa. — Não abri.
Ele pegou o envelope rápido demais, guardou no bolso sem nem olhar.
— É coisa do trabalho — disse, já se afastando.
Não insisti. Mas alguma coisa dentro de mim, algo que eu vinha ignorando havia meses, finalmente se acendeu.
No dia seguinte, cheguei à mansão do seu Ernesto mais cedo que o normal.
Ele percebeu na hora.
— Aconteceu alguma coisa — disse, sem ser pergunta.
Contei tudo. O envelope. O perfume. As respostas curtas demais.
Ele ouviu em silêncio, até o fim.
— Você já suspeitava disso há quanto tempo? — perguntou, por fim.
— Não sei. Talvez meses. Eu só… não queria admitir.
— Às vezes a gente prefere viver na dúvida a enfrentar a certeza — disse ele. — A dúvida ainda deixa espaço pra esperança. A certeza, não.
Enquanto conversávamos, a campainha tocou.
Estranhei, porque em semanas trabalhando ali, ninguém nunca tinha vindo visitar o seu Ernesto.
Fui atender.
Na porta, estava um homem de uns quarenta e poucos anos, terno bem cortado, expressão fechada.
— Boa tarde — disse ele. — Sou Ricardo Walker. Vim ver meu pai.
Fiquei paralisada por um segundo.
— Claro, seu Ricardo. Entre, por favor.
Quando o seu Ernesto viu o filho na sala, o rosto dele mudou completamente. Uma mistura de surpresa e cautela.
— Ricardo — disse ele, devagar. — Não esperava você.
— Eu sei — respondeu o filho, sem sentar. — Vim porque soube que você contratou alguém pra cuidar da casa e de você.
Ele olhou pra mim, de cima a baixo, sem disfarçar a desconfiança.
— E vim também — continuou Ricardo — porque, com sua idade, pai, é hora de conversarmos sobre o futuro dessa casa.
— Que conversa é essa? — perguntou o seu Ernesto, a voz já mais dura.
— A casa está avaliada em uma fortuna. Você mora aqui sozinho, gastando dinheiro com remédios, empregada, manutenção… Faz sentido vender e você se mudar pra um lugar mais prático. Menor. Mais fácil de cuidar.
— Essa casa foi construída pelas minhas mãos, Ricardo. Cada tijolo.
— E vai continuar sendo sua até você assinar os papéis — disse o filho, com uma frieza que me deu calafrios. — Só estou sendo prático.
O seu Ernesto ficou em silêncio por um longo momento, olhando pro filho como se estivesse vendo um estranho.
— Prático — repetiu, baixinho. — Sua mãe também achava que estava sendo prática quando escolheu o lado dela naquela história toda.
Ricardo apertou a mandíbula.
— Não vamos falar sobre isso de novo.
— Não — concordou o seu Ernesto. — Nunca falamos sobre isso de verdade.
Ricardo se virou pra mim, mudando de assunto bruscamente.
— E você, quanto tempo trabalha aqui mesmo?
— Poucas semanas — respondi, sem entender o tom da pergunta.
— Interessante — ele disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Meu pai nunca deixou ninguém tão perto assim tão rápido.
— Ricardo — interrompeu o seu Ernesto, a voz agora firme como eu nunca tinha ouvido. — Se você veio aqui pra insinuar alguma coisa sobre a Laura, pode ir embora agora mesmo.
O filho ergueu as mãos, num gesto falso de rendição.
— Só estou cuidando dos seus interesses, pai.
— Meus interesses estão muito bem cuidados — respondeu o seu Ernesto. — Melhor cuidados do que estiveram em anos, por sinal.
Ricardo olhou pra mim mais uma vez, e dessa vez o desprezo era claro demais pra disfarçar.
— Vamos conversar sobre isso em breve, pai. Com ou sem ela por perto.
E saiu, batendo a porta atrás de si.
O silêncio que ficou na sala era diferente de todos os outros que eu já tinha sentido naquela casa.
— Ele vai voltar — disse o seu Ernesto, olhando pra porta fechada. — E da próxima vez, não vai vir sozinho.
