Aceitei cuidar de um viúvo de oitenta anos porque eu precisava desesperadamente do dinheiro

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Chapter 2

Nos dias seguintes, passei a ir à mansão do seu Ernesto todas as tardes, sempre no mesmo horário, sempre pela mesma trilha de pedras que levava ao portão de ferro.

E, aos poucos, aquela rotina simples começou a se transformar em outra coisa.

— Chegou cedo hoje — disse ele, no terceiro dia, sem tirar os olhos do jornal que eu tinha acabado de trazer.

— Achei que o senhor fosse gostar — respondi, arrumando a bandeja do chá.

— Gostei — ele disse, baixando o jornal. — Só estranhei.

— Por quê?

— Porque parece que você está fugindo de alguma coisa lá fora.

Fiquei parada, com a xícara na mão.

Ele não perguntou de novo. Só esperou.

— As coisas em casa andam… complicadas — falei, sem olhar pra ele.

— Complicadas como?

— Meu marido quase não fala comigo. Faz meses. A gente mora na mesma casa, dorme na mesma cama, mas às vezes eu sinto que ele nem lembra que eu existo.

O seu Ernesto ficou em silêncio por um instante, olhando pela janela, para o jardim já tomado pelo mato.

— Sabe qual é a pior solidão que existe? — perguntou, por fim.

Balancei a cabeça.

— Não é morar sozinho — ele disse. — É morar acompanhado e mesmo assim se sentir sozinho.

As palavras dele me atingiram de um jeito que eu não esperava.

Fiquei ali, parada, sem conseguir dizer nada.

Ele pareceu perceber o efeito que tinha causado, porque suavizou a voz.

— Desculpe. Não quis te machucar.

— Não machucou — falei, com a voz meio embargada. — Só… acertou.

Naquela tarde, enquanto eu organizava as caixinhas de remédio, percebi uma fotografia antiga em cima da cômoda do quarto dele. Um homem mais jovem, de terno, ao lado de uma mulher de sorriso largo e dois meninos pequenos.

— É a sua família? — perguntei, sem pensar muito.

O rosto dele mudou.

Só um pouco. Mas mudou.

— Era — respondeu, seco.

— O senhor tem filhos, não tem? Ouvi dizer que moram longe.

— Moram — ele confirmou. — Bem longe.

— Eles vêm visitar?

Ele demorou pra responder.

— Uma vez por ano, mais ou menos. No Natal, quando lembram.

Havia uma dureza na voz dele que eu nunca tinha ouvido antes.

— Posso perguntar o que aconteceu? — arrisquei.

— Pode perguntar — ele disse. — Mas hoje eu não vou responder.

Guardei aquilo comigo, sem insistir.

Quando cheguei em casa naquela noite, encontrei meu marido sentado à mesa, olhando pro celular, como sempre.

— Como foi seu dia? — perguntei, tentando.

— Normal — ele respondeu, sem levantar os olhos.

— Cuidei de um senhor muito interessante hoje. Ele falou uma coisa que me fez pensar bastante.

— Que bom — ele disse, ainda de olho na tela.

Fiquei ali, parada na cozinha, sentindo exatamente aquilo que o seu Ernesto tinha descrito horas antes.

Acompanhada. E sozinha.

Na tarde seguinte, quando cheguei à mansão, encontrei o seu Ernesto sentado no jardim, olhando pra aquela fotografia antiga que eu tinha visto no quarto dele.

— Sente aqui — ele disse, apontando pra cadeira ao lado.

Sentei.

— Vou te contar uma coisa — falou ele, sem me olhar. — Mas antes eu preciso que você me prometa uma coisa.

— O quê?

— Que não vai olhar pra mim com pena depois que eu terminar.

Fiquei sem entender o motivo daquele pedido.

Mas prometi.

E foi então que o seu Ernesto começou a falar de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes — como se estivesse abrindo uma porta trancada havia anos.

— Meus filhos não se afastaram por acaso — disse ele, com os olhos fixos na fotografia. — Eles se afastaram por causa de uma decisão que eu tomei há quinze anos. Uma decisão que a minha esposa nunca me perdoou.

Ele fez uma pausa, respirou fundo, e olhou finalmente para mim.

— E até hoje, ninguém nesta cidade sabe a verdade inteira.

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