Dois dias antes do meu casamento, meu pai me informou que eu estava sendo entregue a uma das famílias do crime mais temidas de Nova York — e recusar custaria tudo o que eu tinha.

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Chapter 2

O que quer que Niko tenha visto no meu rosto, fez ele parar completamente, o paletó ainda meio dependurado numa mão.

— O que foi isso? — perguntou ele, a voz mudando de tom.

— O que foi o quê?

— Esse medo. Não é o medo de uma mulher acostumada a festas e manchetes.

Fiquei em silêncio, tentando manter a compostura que tinha prometido a mim mesma na catedral.

— Você não sabe nada sobre mim, senhor Santoro.

— Aparentemente não.

Ele se aproximou devagar, os olhos escuros me estudando de um jeito completamente diferente do desprezo frio do altar.

— Estabeleça as regras que quiser — falei, forçando a voz a sair firme. — Mas eu não vou fingir que estou confortável com nada disso.

— Ninguém pediu que você fingisse.

Isso me pegou de surpresa.

— Achei que era exatamente isso que esse casamento exigia. Aparências.

— Aparências pro mundo lá fora — concordou ele. — Não necessariamente entre essas paredes.

Ele parou a um metro de mim, próximo o suficiente pra eu sentir o cheiro de sândalo e alguma coisa mais fria, mais metálica, por baixo.

— Meu pai me disse que você era uma festeira imprudente — falei, incapaz de conter as palavras. — Alguém que colecionava homens como troféus.

Algo escuro cruzou o rosto dele.

— Seu pai contou muitas coisas convenientes, pelo visto.

— E não é verdade?

— As fotos nos jornais não contam histórias completas, senhorita Shaw.

— Vivian.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Se eu vou ser casada com você, prefiro que use meu nome, não meu sobrenome como se eu fosse mais uma peça de um acordo comercial.

Um silêncio se instalou, mais longo dessa vez, enquanto ele parecia reconsiderar cada suposição que tinha feito sobre mim desde o momento em que me viu andando pelo corredor da igreja.

— Vivian — repetiu ele, testando o nome. — Você está tremendo de novo.

— Eu disse que estava com frio.

— Não está.

Ele não se moveu em minha direção, o que de alguma forma tornava tudo mais suportável.

— Eu nunca… — comecei, a voz falhando.

— Você nunca o quê?

Fechei os olhos por um segundo, reunindo coragem.

— Eu nunca estive com um homem, Niko.

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade.

Quando abri os olhos, a expressão dele tinha mudado completamente — a frieza calculista substituída por algo que parecia genuína surpresa, e por trás dela, algo ainda mais complicado.

— Nenhum? Em nenhum dos… eventos que os jornais adoravam documentar?

— As fotos mostravam festas. Não mostravam o que acontecia depois, porque nada acontecia depois. Eu sempre ia embora sozinha.

Ele passou a mão pelo rosto, um gesto cansado que parecia deslocar completamente a imagem que eu tinha formado dele durante todo aquele dia terrível.

— Por que você nunca contou isso pro seu pai? Pra alguém?

— Porque não era da conta de ninguém, e porque eu não confiava em ninguém o suficiente pra que isso não virasse mais uma arma contra mim.

Ele assentiu devagar, como se aquilo fizesse mais sentido do que ele gostaria de admitir.

— Isso muda as coisas — disse ele, finalmente.

— Muda como?

— Não vou tocar em você esta noite, Vivian. Nem em nenhuma noite, até que seja algo que você realmente queira, não algo que você sinta que precisa suportar.

Aquilo era a última coisa que eu esperava ouvir daquele homem que, horas antes, tinha me olhado com puro desprezo.

— Por que a mudança repentina?

— Porque eu passei minha vida inteira nesse mundo cercado de pessoas que fingem coisas que não sentem, pra conseguir o que querem — disse ele, a voz baixa. — E, pela primeira vez em muito tempo, acabei de conhecer alguém que preferiu a verdade, mesmo sabendo que a verdade a deixava vulnerável.

Ele pegou um travesseiro extra do closet e um cobertor dobrado.

— Vou dormir no sofá do escritório. Você fica com o quarto.

— Não precisa fazer isso.

— Preciso, sim.

Na porta, ele parou, olhando pra trás uma última vez.

— Amanhã eu quero que você me conte o que realmente aconteceu entre você e seu pai, Vivian. Porque um homem não entrega a própria filha assim, tremendo de medo, só por causa de dinheiro comum.

Fiquei sozinha naquele quarto enorme e estranho, cercada por lençóis que não eram meus e uma vista de Nova York que parecia pertencer a outra vida inteiramente, pensando em quanto ainda havia pra descobrir sobre o verdadeiro motivo daquele casamento.

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