Chapter 2
Terminei os pontos por volta das quatro da manhã, as mãos doendo de tanta tensão acumulada, o corpo inteiro implorando por descanso que eu não podia me dar ainda.
Dominic ficou deitado na bancada, o peito subindo e descendo mais devagar agora, a respiração menos irregular do que antes.
— Precisa descansar — falei, cobrindo o curativo com uma gaze final. — E precisa comer alguma coisa, ou vai desmaiar de qualquer jeito, apesar de toda essa força de vontade.
— Você fala como se eu estivesse acostumado a seguir ordens — ele murmurou, os olhos entreabertos me observando.
— Você está no meu apartamento, com meus pontos no seu corpo. Nesse momento específico, sim, você vai seguir minhas ordens.
Alguma coisa parecido com diversão cruzou o rosto dele, rápido demais para eu ter certeza se realmente aconteceu.
Ajudei ele a se deitar no meu sofá, o único móvel grande o suficiente para acomodar aquele corpo enorme, e fui até a cozinha preparar um chá quente e uma sopa simples que eu tinha sobrado do dia anterior.
Quando voltei, ele estava com os olhos fechados, mas a tensão nos ombros dizia que não estava dormindo.
— Você devia ter me deixado morrer naquele beco — ele disse, sem abrir os olhos.
— Por que eu faria isso?
— Porque agora você sabe coisas que colocam sua vida em perigo. Meu nome. Meu rosto. O fato de que alguém quer me matar.
Sentei na cadeira ao lado do sofá, segurando a caneca de chá que ele ainda não tinha tocado.
— Eu sou enfermeira, Dominic. Salvar vidas não é uma escolha que eu faço baseada no currículo da pessoa.
— Mesmo sabendo o que eu sou?
— E o que exatamente você é?
Ele finalmente abriu os olhos, encarando-me com uma intensidade que fez meu estômago se apertar.
— Um homem que fez coisas que você nunca aprovaria, se soubesse os detalhes.
— Eu não perguntei os detalhes.
— Devia perguntar. Devia ter medo de mim.
— Devia — concordei. — Mas de alguma forma, olhando para você agora, só consigo ver alguém ferido que precisa de cuidado.
Ele ficou em silêncio, os olhos me estudando de um jeito que eu não sabia decifrar completamente.
— Meu nome completo é Dominic Russo — ele finalmente disse. — Você provavelmente já ouviu falar de mim, mesmo sem saber.
O sobrenome bateu com um peso familiar, embora eu não conseguisse identificar imediatamente de onde.
— Devia significar alguma coisa para mim?
— Se você lesse os jornais de negócios de Boston com mais atenção, sim.
Aceitei o chá que finalmente ele pegou das minhas mãos, os dedos roçando os meus por um segundo mais longo do que necessário.
— Quem atirou em você? — perguntei, repetindo a pergunta de horas atrás, agora com mais coragem para insistir.
— Pessoas que trabalhavam para um homem chamado Salvatore Grimaldi. Ele está tentando expandir território que não é dele, e decidiu que eliminar a mim seria um bom primeiro passo.
— E você matou os homens dele.
— Em legítima defesa.
— Isso não muda o fato de que existem pessoas mortas por sua causa.
— Não — ele concordou, sem remorso aparente na voz. — Não muda.
Aquela honestidade brutal, ao invés de me afastar, criou uma estranha confiança entre nós, como se soubéssemos exatamente com quem estávamos lidando, sem ilusões nem mentiras confortáveis.
— Você precisa ficar aqui até se recuperar o suficiente para se mover com segurança — falei, voltando ao tom prático de enfermeira. — Mas depois disso, você precisa ir embora, antes que alguém descubra onde você está e coloque minha vida em risco também.
— Concordo completamente.
Mas, olhando para ele naquele momento, algo na expressão dele sugeria que talvez nenhum de nós dois estivesse completamente convencido daquela separação inevitável.
