Chapter 3
Os dias seguintes se transformaram numa rotina estranha e tensa dentro do meu pequeno apartamento, cuidando dos ferimentos de Dominic enquanto tentava manter alguma aparência de normalidade na minha própria vida.
Liguei para o hospital alegando uma emergência familiar, comprando tempo suficiente para garantir que ele pudesse se mover sem risco de reabrir os pontos.
— Você está andando melhor hoje — comentei, no terceiro dia, observando-o se mover pela sala com menos rigidez do que antes.
— Sua sutura foi impecável — ele respondeu, um elogio direto que me pegou de surpresa vindo dele. — Você poderia ter sido cirurgiã.
— Prefiro trauma. Menos política de hospital, mais ação real.
Ele riu, um som baixo e rouco que parecia estranho vindo de um homem que, até então, eu só tinha visto conter dor e frieza calculada.
Naquela tarde, enquanto eu trocava o curativo dele, senti seus olhos fixos em mim de um jeito diferente das avaliações clínicas anteriores.
— Por que você não tem medo de mim? — ele perguntou, de repente.
Parei o que estava fazendo, considerando a pergunta com cuidado.
— Eu tenho medo — admiti. — Só não do jeito que você espera. Tenho medo do que representa ter alguém como você na minha vida. Não tenho medo de você fisicamente me machucar.
— Por que não?
— Porque, apesar de tudo que você já fez, apesar do sangue nas suas mãos, você nunca me tratou como uma ameaça ou como alguém descartável. Isso conta alguma coisa.
Ele ficou em silêncio, absorvendo aquilo com uma seriedade que eu já tinha aprendido a reconhecer como rara nele.
Meu celular vibrou sobre a mesa, uma mensagem da minha colega de trabalho perguntando se eu estava bem, já que tinha faltado ao plantão pela terceira vez seguida.
— Você precisa voltar para sua vida normal — Dominic disse, notando minha expressão preocupada. — Isso não pode continuar assim indefinidamente.
— Eu sei. Mas não posso simplesmente te deixar sozinho, ainda se recuperando.
— Eu vou providenciar um lugar seguro amanhã. Já entrei em contato com alguém de confiança.
Aquela notícia deveria ter trazido alívio.
Em vez disso, senti um aperto inesperado no peito.
— Isso é bom — falei, tentando soar mais convincente do que realmente me sentia.
Dominic me observou com atenção, como se conseguisse enxergar através da fachada que eu tentava manter.
— Clara, o que exatamente está acontecendo aqui?
— Não sei do que você está falando.
— Está falando sim. Assim como eu também estou sentindo.
O ar entre nós ficou carregado de uma tensão que eu tinha tentado ignorar nos últimos dias, focando apenas nos cuidados médicos, evitando reconhecer a atração inegável que crescia silenciosamente a cada interação.
— Isso é loucura — sussurrei. — Você é praticamente um estranho perigoso que eu conheci sangrando num beco.
— E ainda assim, aqui estamos.
Antes que eu pudesse responder, um barulho alto vindo da rua nos fez congelar simultaneamente.
Dominic se moveu com uma rapidez surpreendente para alguém recém-operado, indo até a janela e espiando através das cortinas com cautela treinada.
— O que foi? — perguntei, o coração disparando.
— Um carro parado do outro lado da rua. Já está ali há muito tempo.
— Pode ser só um vizinho.
— Ou pode ser alguém que descobriu onde eu estou.
O medo genuíno na voz dele, algo que eu nunca tinha ouvido antes, mesmo enquanto ele sangrava na minha cozinha, fez meu próprio pânico disparar.
