Chapter 2
Dante passou a tarde inteira revisando cada fragmento de informação que Paul conseguia trazer, mas quanto mais olhava para as fotografias de Vivien Rinaldi entrando e saindo do prédio, mais uma pergunta insistia em voltar: por que uma mulher que ocupava um dos cargos mais poderosos dentro do império Moretti arriscaria tudo plantando provas contra a própria patroa?
— Precisamos saber com quem ela está falando fora do prédio — disse Dante, batendo o dedo na fotografia. — Ninguém faz um movimento desses sozinho.
Paul assentiu e deslizou um segundo envelope pela mesa.
— Já adiantei isso. Vivien fez três ligações para o mesmo número nos últimos dez dias. Um número registrado em nome de uma empresa de consultoria em Chicago.
— Chicago — repetiu Dante, os olhos se estreitando. — Isso não é coincidência.
— O que você está pensando?
— Estou pensando que talvez Matteo não seja o único que Vivien está tentando derrubar.
Enquanto isso, no Harbor Metropolitan, Carol Hartwell permanecia sentada numa cadeira de plástico duro fora da UTI, o celular na mão, os olhos fixos na porta fechada atrás da qual Elena lutava por cada batida do coração.
Uma médica jovem, de jaleco amassado e olheiras profundas, se aproximou dela por volta das quatro da tarde.
— A senhora é da família?
— Sou advogada dela — Carol respondeu, se levantando rápido. — E, no momento, sou a pessoa mais próxima de família que ela tem aqui.
A médica hesitou, mas o cansaço nos olhos de Carol parecia convencê-la de que não adiantava fingir formalidades.
— O quadro dela é instável. A pressão intracraniana ainda está alta, e estamos monitorando o bebê de perto. Se os sinais vitais dele caírem, vamos precisar decidir sobre um parto de emergência, mesmo prematuro.
— E as chances dele, se isso acontecer?
— Trinta e duas semanas dão uma boa margem, mas nunca é garantido — a médica respondeu, com uma sinceridade que doía mais do que qualquer mentira gentil. — Estamos fazendo tudo o que é possível pelos dois.
Carol assentiu, engolindo a dor com a disciplina de quem tinha passado a vida inteira aprendendo a não deixar transparecer fraqueza.
Assim que a médica se afastou, o celular de Carol vibrou. Era Dante.
— Como ela está? — ele perguntou, sem cumprimentos.
— Viva. Por enquanto — Carol respondeu, a voz baixa. — E você? Descobriu alguma coisa?
— Vivien Rinaldi está em contato com alguém em Chicago. Alguém que pode estar de olho no território de Matteo há algum tempo.
— Você acha que ela está tentando entregar Matteo para forasteiros?
— Acho que ela está tentando entregar o império inteiro — Dante disse, a voz carregada de uma certeza fria. — E colocar a culpa da queda de Elena em cima de Matteo era só a primeira peça do plano. Se Elena morrer, e o bebê também, Matteo perde a única coisa que o mantinha um pouco mais… contido.
— Contido? — Carol quase riu, sem humor nenhum. — Ele quase matou a própria esposa.
— Eu sei o que ele fez — Dante respondeu, e havia algo pessoal demais naquela frase, algo que Carol não conseguiu identificar de imediato. — Por isso preciso que você me dê uma coisa, Carol. Preciso ver os documentos que Elena guardou com você.
Carol hesitou por um instante.
— Esses documentos são a garantia de segurança dela. Se eu entregar isso para você, e você usar do jeito errado…
— Eu não sou o inimigo aqui — Dante interrompeu, a voz firme, mas sem raiva. — Elena confiou em você para guardar essa pasta porque sabia que um dia precisaria de alguém que pudesse ir a lugares onde a lei não chega. Esse dia chegou.
Do outro lado da linha, Carol fechou os olhos por um segundo, pensando na jovem grávida que tinha entrado no seu escritório dezoito meses antes, com medo nos olhos e uma coragem que a maioria das pessoas nunca demonstrava.
— Ela mencionou seu nome uma vez — Carol disse, baixinho. — Há muito tempo. Disse que, se algum dia tudo desse errado, e só se desse muito errado, eu deveria procurar você.
Um silêncio pesado se instalou na linha.
— Ela disse por quê? — Dante perguntou, a voz estranhamente rouca.
— Não. Só disse um nome. Salvatore.
O silêncio que se seguiu durou tanto tempo que Carol chegou a verificar se a ligação tinha caído.
— Dante?
— Estou aqui — ele respondeu, finalmente, a voz mais baixa do que antes. — Me manda o endereço do hospital. Estou a caminho.
Ele desligou antes que Carol pudesse perguntar qualquer coisa mais, e ficou parado no meio da sala reservada do restaurante, o peso daquele nome pousando sobre o peito dele como uma pedra que ele carregava havia mais de trinta anos.
Paul percebeu a mudança na expressão do amigo.
— O que foi?
Dante levou um momento para responder, os olhos perdidos num ponto qualquer da parede.
— Salvatore era meu irmão — ele disse, finalmente. — E Elena é filha dele.
