Morre antes de sexta, Dominic. O dinheiro se move mais rápido quando você para de respirar.

Written by

in

Chapter 3

Dois dias se passaram.

Eu continuei imóvel, respiração controlada, monitores registrando um corpo que fingia estar mais perto da morte do que da vida.

Grace entrava três vezes ao dia — de manhã, à tarde, à noite — sempre com a mesma rotina discreta.

Na terceira visita da tarde, ela trouxe informação nova.

Assim que a porta se fechou atrás dela, sua voz baixou a quase nada.

— O senhor Anthony teve uma reunião no corredor de baixo. Com dois homens que eu nunca tinha visto.

— Descreve eles.

— Ternos caros. Sotaque do leste europeu. Um deles tinha uma cicatriz aqui — ela tocou a própria bochecha.

Meu estômago apertou.

— Isso é a gente do Yuri Sokolov.

— Quem é esse?

— Um homem que eu recusei fazer negócio há dois anos. Ele nunca esqueceu.

Grace continuou arrumando os travesseiros, mantendo as mãos ocupadas enquanto falava.

— Eles falaram sobre “acelerar o processo”. Não entendi bem o resto, falavam baixo.

— Acelerar o quê?

— Não sei. Mas o senhor Anthony parecia nervoso. Ele continuava olhando pra porta, tipo com medo de alguém ver.

Isso confirmava o que eu já suspeitava: Anthony não estava apenas tentando assumir o controle da família depois da minha “morte” — ele tinha aliados de fora, gente que eu tinha feito inimiga.

— E a Veronica?

— Ela ligou pro alguém hoje de manhã. Chamou de “querido”.

Algo dentro de mim endureceu.

— Continua.

— Ela disse: “Ele não vai durar até sexta. O médico garantiu.”

Meu sangue gelou.

— O médico?

— Foi o que ela disse.

Meu médico particular — o homem que eu tinha confiado com o maior segredo da minha vida — podia estar comprado.

— Grace, você consegue descobrir quem ela ligou?

— Eu vi o nome na tela quando ela guardou o celular. “R.K.”

Eu revirei os nomes na cabeça.

Richard Kessler.

Meu advogado.

A peça se encaixou com uma frieza que doeu mais que as costelas quebradas.

— Ela e o Kessler.

— O senhor conhece ele?

— Conheço há vinte anos. Ele cuidou de cada contrato que eu já assinei.

— Então ele sabe tudo sobre suas contas, seus bens…

— Tudo.

Grace parou de arrumar os travesseiros e olhou pra mim.

— Sr. Moretti, se ele e a Srta. Hale estão trabalhando juntos, e o médico também está envolvido…

— Então eles controlam minha morte, meu dinheiro, e minha “recuperação” — completei. — Tudo ao mesmo tempo.

O silêncio no quarto ficou pesado.

— O que o senhor vai fazer?

— Eu preciso descobrir até onde essa rede vai antes de agir. Se eu acordar cedo demais, eles simplesmente encontram outro jeito de terminar o serviço.

— Isso significa continuar fingindo.

— Significa continuar fingindo, sim.

Grace balançou a cabeça, ainda processando.

— Tem mais uma coisa.

— O quê?

— O médico. Dr. Reyes. Ele pediu pra trocar meu turno de limpeza dessa ala. Disse que “não precisa mais de tanta gente por aqui”.

Meu instinto disparou um alarme.

— Ele quer te tirar do caminho.

— Foi o que eu pensei também.

— Você aceitou?

— Eu disse que ia pensar. Não quis parecer desconfiada.

Inteligente.

Muito mais inteligente do que qualquer um dos advogados que eu pagava uma fortuna.

— Grace, se ele insistir, aceita a troca. Não posso arriscar que desconfiem de você.

— E depois?

— Depois a gente encontra outro jeito de você continuar de olho neles. Talvez através de outra pessoa da equipe de limpeza.

Ela pensou por um momento.

— Tem a Marisol. Trabalha na cozinha do hospital. Ela é minha amiga. Confio nela.

— Você confiaria a vida dela nisso?

Grace hesitou — a primeira hesitação real que eu tinha visto nela.

— Eu confiaria a minha.

Aquela resposta ficou martelando na minha cabeça pelo resto da tarde, muito depois dela ter saído do quarto.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos