Chapter 4
No quarto dia, tudo começou a desmoronar mais rápido do que eu esperava.
Grace entrou pela manhã com o rosto tenso, quase sem conseguir esconder o nervosismo.
— O senhor precisa saber de uma coisa agora.
— Fala.
— Eles marcaram. Sexta de manhã. Às sete horas.
Meu corpo inteiro travou.
— Marcaram o quê, exatamente?
— Eu não sei os detalhes, mas ouvi o Dr. Reyes falando no telefone. Ele disse: “Sete da manhã, antes da troca de turno. Menos gente por perto.”
Sexta de manhã.
Exatamente a data que Veronica tinha sussurrado no meu ouvido.
— Isso é amanhã.
— Sim, senhor.
Meu coração — o mesmo coração que os monitores fingiam mal acompanhar — disparou de verdade.
— Preciso do Marcus.
— Quem é Marcus?
— Meu chefe de segurança. O único homem, além de você agora, em quem eu ainda confio completamente.
— Como o senhor vai contatar ele sem que ninguém perceba?
Era uma boa pergunta, e eu não tinha resposta imediata.
— Meu celular está no cofre do quarto, junto com meus pertences pessoais. Se você conseguir…
— Eu consigo entrar lá. Tenho acesso de limpeza a esse armário.
— Grace, se te pegarem com meu celular…
— Então eu digo que encontrei caído no chão. — Ela deu de ombros, como se fosse simples. — As pessoas acreditam no que é conveniente acreditar. O senhor mesmo me ensinou isso.
Ironicamente, era verdade.
Ela saiu e voltou vinte minutos depois, o celular escondido dentro de uma toalha dobrada no carrinho de limpeza.
Assim que a porta se fechou, eu digitei com dedos que ainda doíam, uma mensagem curta pro Marcus, código que só nós dois entenderíamos: “Acordado. Sexta 7h. Confio só em você e G.”
A resposta veio em menos de um minuto.
“A caminho. Não se mexe até eu chegar.”
Grace observava tudo com os olhos arregalados.
— Ele vai vir?
— Ele sempre vem.
Mas a noite trouxe uma reviravolta que nenhum de nós dois esperava.
Por volta das dez da noite, a porta do quarto se abriu sem aviso.
Não era hora de visita.
Eu fechei os olhos rapidamente, voltando ao papel de homem em coma.
Passos.
Não os de Grace.
Salto alto, batendo devagar no chão frio do hospital.
Veronica.
Ela se aproximou da cama, mas dessa vez não sozinha.
— Você tem certeza que ele não vai acordar antes de amanhã? — a voz dela, baixa, dirigida a alguém.
— Absoluta — respondeu uma voz masculina que eu reconheci: Dr. Reyes. — A dose que eu ajustei garante isso.
Meu sangue gelou.
Dose.
Eles estavam me drogando, achando que era parte do “coma”.
— E o Kessler já preparou os documentos?
— Assinatura de procuração de emergência, já com validação legal. Assim que o coração dele parar, tudo passa pra você automaticamente.
— Perfeito.
Veronica se inclinou perto do meu ouvido de novo, a mesma proximidade da primeira vez.
— Amanhã de manhã, meu amor. Não vai doer. Prometo.
Ela se afastou, os dois saíram, a porta se fechou.
Eu fiquei ali, imóvel, o coração batendo tão forte que temi que os monitores denunciassem.
Cinco minutos depois, Grace entrou correndo, sem se importar em fingir discrição.
— Eu ouvi tudo do corredor — ela sussurrou, apavorada. — Sr. Moretti, eles vão te matar amanhã de manhã, de verdade dessa vez.
— Eu sei.
— O que a gente faz?
Eu abri os olhos, e dessa vez não havia hesitação neles.
— A gente vira o jogo antes que eles consigam jogar o deles.
