Chapter 2
O casamento aconteceu três dias depois, numa sala pequena do cartório, sem flores, sem convidados além de um advogado e duas testemunhas contratadas.
Adrian usava um terno cinza-escuro, o rosto fechado como se estivesse assinando um contrato de fusão, não um casamento.
“Você pode se arrepender depois,” ele disse, baixinho, enquanto esperávamos o juiz.
“Você também.”
Ele quase sorriu.
Assinamos os papéis em menos de dez minutos. Meu pai recebeu a transferência de três milhões de dólares na mesma tarde e nunca mais ligou para saber como eu estava.
Não fiquei surpresa. Só senti o peso de mais uma confirmação.
A mansão dos Cross ficava a quarenta minutos do centro, cercada por muros altos e câmeras que eu fingi não notar.
Adrian me levou até a sala de estar, onde as quatro crianças esperavam, alinhadas como um pelotão relutante.
Mason, o mais velho, nem olhou para mim.
Claire cruzou os braços. “Então você é a nova moeda de troca.”
“Claire,” Adrian avisou.
“Não,” eu disse, calma. “Deixa ela falar.”
Claire ergueu o queixo. “Nossa mãe morreu há três anos e agora aparece uma estranha achando que pode ocupar o lugar dela.”
“Eu não vim ocupar o lugar de ninguém,” respondi. “Só vim tentar ajudar, se vocês deixarem.”
Noah, sete anos, me olhava de longe, calado, avaliando cada palavra.
Lily, a caçula, foi a única que se aproximou, puxando minha saia com curiosidade.
“Você vai ficar?” perguntou ela.
Agachei para ficar da altura dela. “Vou ficar.”
Mason bufou e saiu da sala sem dizer nada.
Naquela noite, depois de colocar Lily para dormir — a única que aceitou minha ajuda — encontrei Adrian sozinho no escritório, olhando para um retrato de Caroline na parede.
“Eles não vão facilitar,” ele disse, sem se virar.
“Eu não esperava que facilitassem.”
“Mason a viu correndo para tirá-lo do carro segundos antes da explosão,” disse Adrian, a voz rouca. “Ele tinha onze anos.”
Senti o chão sob os meus pés ficar mais pesado com aquela informação.
“Ninguém nunca me contou os detalhes.”
“Ninguém fala sobre aquele dia,” respondeu ele. “Nem mesmo eu.”
Fiquei ali, sem saber o que dizer, até que ele finalmente se virou para mim.
“Obrigado,” disse baixinho. “Por não desistir na primeira resposta grosseira da Claire.”
“Eu não desisto fácil.”
Ele assentiu, quase como se estivesse anotando aquilo para lembrar depois.
Nos dias seguintes, comecei a organizar a casa — não como dona, mas como alguém tentando entender o território. Foi numa dessas tardes, arrumando uma estante na antiga sala de Caroline, que encontrei uma caixa trancada atrás de livros antigos.
Dentro, um diário.
E, presa entre as páginas, uma anotação recente, com letra que definitivamente não era de Caroline:
“Ela sabia demais sobre o carregamento de dezembro. Precisava ser resolvido antes que falasse.”
Minhas mãos gelaram.
Aquilo não tinha três anos. A tinta ainda parecia fresca.
