Chapter 3
Malcolm nunca tinha visto o patrão gelar daquele jeito.
“Boss?”
Rafe não respondeu na hora. Os olhos dele ainda presos na tela do celular, no rosto granulado que a câmera tinha capturado saindo de um carro três quarteirões antes do tiro.
“Tem certeza que é ele?”
“A placa bate. O jeito de andar bate. E ele desligou o rastreador do celular vinte minutos antes do disparo.”
Rafe fechou a mão em torno do aparelho com tanta força que Malcolm pensou que ele fosse quebrar a tela.
“Dorian.”
O nome saiu como uma lâmina.
“Ele estava na gala,” Malcolm disse baixo. “Sentado três mesas da sua.”
“Eu sei onde ele estava sentado, Malcolm. Eu convidei ele.”
Rafe se afastou da porta do quarto de June, como se precisasse colocar distância entre aquela informação e a irmã dormindo do outro lado da parede.
“Ele é seu primo,” Malcolm disse, ainda tentando entender.
“Ele é meu primo,” Rafe repetiu, a voz baixa e perigosamente calma. “E há dois anos ele acha que devia estar no meu lugar.”
Do outro lado do corredor, uma porta se abriu. Tessa saiu, os olhos ainda cansados do plantão, mas alertas o suficiente pra notar a mudança no ar.
“O que aconteceu?”
Rafe olhou pra ela e, por um segundo, pareceu escolher entre mentir e dizer a verdade. Escolheu a verdade.
“Alguém da minha família tentou matar minha irmã.”
Tessa não recuou. Não fez cara de choque exagerado. Só ficou ali, absorvendo.
“Você tem certeza?”
“Tenho uma câmera de segurança e um rastreador desligado na hora certa. É o suficiente pra mim.”
“E o que você vai fazer com isso?”
A pergunta pairou entre eles como algo perigoso.
“Isso não é problema seu,” ele disse, mas sem a dureza que a frase deveria carregar.
“Você sangrou no meu turno. Isso meio que virou problema meu.”
Malcolm olhou entre os dois, sem saber se devia interromper ou desaparecer no corredor. Optou por ficar parado, fingindo checar o celular.
Rafe deu um passo em direção a Tessa, a voz mais baixa agora, quase pessoal demais pra um corredor de hospital.
“Você devia ir pra casa.”
“Meu plantão só termina daqui a três horas.”
“Depois do plantão, então. Longe disso. Longe de mim.”
Tessa cruzou os braços. “Isso é um pedido ou uma ameaça?”
“É um aviso.” Os olhos dele encontraram os dela, e havia algo ali que não era frieza — era medo, disfarçado de controle. “As pessoas ao meu redor não ficam seguras por muito tempo. Minha irmã tomou um tiro hoje só por ser minha irmã.”
“E você acha que eu vou fugir por causa disso?”
“Eu acho que você devia.”
“Você não me conhece direito ainda.”
Alguma coisa passou pelo rosto dele — quase um sorriso, apagado rápido demais pra virar um de verdade.
“Não,” ele concordou. “Mas queria conhecer.”
O corredor ficou em silêncio por um segundo longo demais.
Malcolm pigarreou. “Boss, precisamos decidir o que fazer com o Dorian antes que ele saiba que a gente sabe.”
Rafe não desgrudou os olhos de Tessa por mais um instante. Depois, relutante, virou pra Malcolm.
“Convoca ele. Diz que é reunião de família. Amanhã, na casa principal.”
“E se ele não vier?”
“Ele vai vir. Homens como ele sempre acham que conseguem se explicar.”
Tessa observou aquela decisão sendo tomada com uma frieza que a assustou um pouco — não pelo que Rafe era capaz de fazer, mas pela facilidade com que ele conseguia separar a dor de agir.
“Vai machucar ele?” ela perguntou, antes de conseguir se conter.
Rafe olhou pra ela como se a pergunta o tivesse pego de surpresa.
“Vou descobrir por que ele fez isso. Depois vou decidir.”
“Isso não é resposta.”
“É a única que eu tenho agora.”
Uma enfermeira passou apressada, e o barulho do corredor voltou a engolir o momento entre eles.
“Preciso voltar pro plantão,” Tessa disse finalmente.
“Tessa.”
Ela parou.
“Obrigado. De novo.”
“Para de agradecer. Você tá me deixando desconfiada.”
Um fio de humor escapou dele, quase invisível, mas real.
“Vou te levar pra jantar quando isso tudo acabar,” ele disse, e pareceu surpreso consigo mesmo por ter dito em voz alta.
Tessa ergueu uma sobrancelha. “Isso é jeito de convidar alguém?”
“Eu não convido pessoas há muito tempo. Perdi a prática.”
“Percebi.”
Ela se virou e caminhou de volta pro posto de enfermagem, mas o coração dela batia num ritmo que não tinha nada a ver com cafeína ou plantão longo.
Atrás dela, Rafe ficou parado no corredor, os olhos seguindo a silhueta dela até desaparecer atrás da porta dupla.
“Boss,” Malcolm chamou baixinho. “Isso é sério? Depois de tudo que aconteceu hoje, você tá pensando em jantar?”
Rafe não respondeu na hora.
“Ela não travou,” ele disse finalmente, mais pra si mesmo do que pra Malcolm. “Em duas horas, ela foi a única pessoa que não travou perto de mim.”
Malcolm não soube o que responder a isso.
“Marca a reunião com Dorian,” Rafe disse, a voz endurecendo de novo, o momento pessoal se fechando como uma porta. “E coloca dois homens de confiança de olho na Dra. Ward. Discretos. Ela não pode saber.”
“Achei que você queria ela longe disso.”
“Eu quero. Mas não confio que ela vá ficar.”
Malcolm olhou pro patrão por um segundo longo, então assentiu e se afastou pelo corredor, já discando um número.
Rafe ficou sozinho, olhando pra porta por onde Tessa tinha desaparecido, sentindo pela primeira vez em anos que talvez tivesse mais a perder do que só a própria vida.
