Chapter 4
A casa principal dos Calder ficava numa colina isolada, cercada por muros altos e câmeras que ninguém via mas todo mundo sentia.
Dorian chegou às dez da manhã, com o mesmo sorriso fácil de sempre, como se nada tivesse acontecido.
“Rafe! Fiquei sabendo do que houve na gala. Que loucura, cara. June está bem?”
“Está estável.”
“Graças a Deus.” Dorian abraçou o primo com um tapinha nas costas, e Rafe deixou, o corpo rígido, os olhos frios.
“Senta,” Rafe disse, apontando pra cadeira do outro lado da mesa de reunião.
Dorian sentou, ainda sorrindo, ainda confiante.
“O que foi, primo? Parece sério.”
“É sério.”
Malcolm fechou a porta da sala e ficou encostado nela, os braços cruzados.
Rafe colocou o celular na mesa e deu play no vídeo.
A imagem granulada mostrava Dorian saindo do carro, três quarteirões do local da gala, vinte minutos antes do tiro.
O sorriso de Dorian começou a tremer nas bordas.
“Isso… isso não é o que parece.”
“O que parece, Dorian?”
“Eu só… eu tinha um encontro. Perto dali. Não tem nada a ver com o tiro.”
“O seu rastreador de celular desligou às 21h40. O tiro foi às 22h02. Você quer tentar de novo?”
O silêncio na sala ficou pesado o suficiente pra sufocar.
“Rafe, eu juro—”
“Não jura nada pra mim.” A voz de Rafe não subiu, mas cada palavra pesava como pedra. “June quase morreu ontem. Ela tomou um tiro que era pra mim.”
“Como assim era pra você?”
“O atirador mirou nela por engano, ou porque alguém disse pra ele que ela seria mais fácil de acertar do que eu. Qual das duas foi, Dorian?”
Dorian ficou branco.
“Eu não mandei atirar em ninguém.”
“Mas sabia que ia acontecer.”
O silêncio que se seguiu foi resposta o suficiente.
“Eu só queria assustar você,” Dorian disse finalmente, a voz quebrando. “Eu queria que você soubesse que não está seguro do jeito que pensa que está. Que essa empresa, essa família, esse… trono que você construiu, pode ser tirado de você a qualquer momento.”
“Então você contratou alguém pra atirar na minha irmã pra provar um ponto.”
“Eu não sabia que ia ser ela! Eu disse pro cara mirar em você, no seu carro, só pra te dar um susto, mostrar que você não é intocável—”
“E ele errou o alvo,” Rafe terminou, a voz agora um sussurro perigoso.
Dorian começou a chorar, a máscara toda desmoronando.
“Eu só queria ser visto, Rafe. Meu pai trabalhou a vida inteira pra essa empresa e você recebeu tudo só porque nasceu filho do irmão mais velho. Eu me formei em Harvard. Eu construí três negócios sozinho. E ainda assim, em toda reunião, em toda festa, eu sou só ‘o primo do Rafe’.”
“Então você decidiu que a resposta era violência.”
“Eu decidi que a resposta era te mostrar que você não é invencível!”
Rafe se levantou devagar, e mesmo sentado, Dorian pareceu encolher.
“Você quase matou a única pessoa nessa família que nunca duvidou de mim,” Rafe disse. “June te defendia quando os outros diziam que eu era frio demais pra dirigir a empresa. Ela brigava por você nas reuniões de conselho. E você quase a matou pra provar um ponto sobre mim.”
“Rafe, por favor—”
“Malcolm.”
Malcolm se afastou da porta.
“Ele não sai dessa casa até a polícia chegar.”
“Rafe, sou sua família!”
“Você deixou de ser família no momento em que decidiu que o sangue dela valia menos que o seu orgulho.”
Dorian tentou se levantar, mas dois seguranças entraram e o seguraram pelos braços.
“Isso não vai acabar bem pra você,” Dorian gritou, a voz distorcida pelo pânico. “Você acha que eu trabalhei sozinho? Você acha que eu tinha dinheiro pra contratar um atirador profissional sozinho?”
Rafe congelou.
“O que você quer dizer com isso?”
Dorian sorriu através das lágrimas, um sorriso amargo e derrotado, mas ainda assim cheio de veneno.
“Pergunta pro seu conselho quem financiou minha ‘lição’. Pergunta quem mais quer você fora daquela cadeira.”
Os seguranças o arrastaram pra fora, os gritos ecoando pelo corredor até a porta da frente se fechar.
Rafe ficou parado no meio da sala, o coração batendo mais forte do que qualquer coisa que uma bala tivesse causado.
“Boss,” Malcolm disse cuidadosamente. “Ele pode estar blefando. Tentando plantar dúvida antes de ser preso.”
“Ou pode estar falando a verdade.”
Rafe pegou o celular e discou um número.
“Preciso da lista completa dos investidores que votaram contra mim na última reunião de conselho,” ele disse assim que a ligação foi atendida. “Todos eles. Hoje.”
Ele desligou e ficou olhando pra janela, pro jardim molhado de chuva lá fora.
“Se tem mais gente por trás disso,” ele disse baixo, “June não é a única em perigo.”
Malcolm entendeu na hora quem mais estava na cabeça do patrão.
“Vou mandar reforçar a segurança da Dra. Ward.”
Rafe assentiu, mas o peso no peito dele não diminuiu nem um pouco.
