Chapter 6
A ligação de Ashford veio três horas depois, direto pro celular de Rafe, a voz calma e arrogante do outro lado.
“Rafe Calder. Achei que já teria aprendido a lição com o seu primo.”
“Você tem uma coisa que eu quero de volta,” Rafe disse, a voz perigosamente controlada. “Sua liberdade. E tem uma última chance de manter ela.”
Ashford riu, um som seco e sem humor. “Você não tem provas de nada.”
“Eu tenho o Dorian confessando em áudio gravado. Tenho o pagamento rastreado até uma conta que leva direto ao seu escritório de advocacia. E tenho uma ameaça por escrito contra uma cidadã civil que não tem absolutamente nada a ver com a briga de vocês.”
“Ela escolheu ficar perto de você. Isso a torna parte da briga.”
Alguma coisa dentro de Rafe quebrou naquele momento — não visível, não em movimento, mas em algo mais fundo.
“Onde você está agora?” Rafe perguntou, a voz baixa demais pra ser tranquilizadora.
“Nervoso, Calder? Isso não é do seu feitio.”
“Onde. Você. Está.”
Ashford desligou.
Rafe ficou parado, o celular ainda na mão, o silêncio do apartamento pesando como chumbo.
Tessa, sentada no sofá, observava tudo com o coração na garganta.
“Ele vai vir atrás de mim,” ela disse, mais afirmação do que pergunta.
“Não se eu chegar nele primeiro.”
“Rafe—”
“Não.” Ele se virou pra ela, os olhos duros. “Eu já perdi controle uma vez essa semana e minha irmã quase morreu. Não vou deixar isso acontecer de novo.”
Malcolm entrou apressado, o rosto tenso. “Localizamos o celular dele. Um armazém abandonado na zona industrial. Mas boss, tem um problema.”
“Qual?”
“Ele sabia que a gente ia rastrear. Isso é armadilha.”
Rafe já estava pegando o casaco.
“Eu sei.”
“Então por que vai mesmo assim?”
“Porque se eu não for, ele vai continuar mandando gente atrás dela até conseguir. Isso só acaba de um jeito.”
Tessa se levantou. “Eu vou com você.”
“Não.”
“Rafe, eu sou enfermeira de guerra. Passei dois anos numa zona de conflito tratando gente sob fogo. Você acha mesmo que eu vou ficar sentada nesse apartamento esperando notícias?”
Ele parou, a mão ainda no casaco, e por um segundo pareceu que ia discutir. Depois algo nos olhos dele cedeu.
“Fica atrás de mim o tempo todo.”
“Combinado.”
O armazém estava escuro por dentro, iluminado só por luzes de emergência vermelhas que pintavam tudo de sangue.
Ashford esperava no centro, cercado por seis homens armados, um sorriso fino nos lábios.
“Rafe Calder. Trouxe a namorada.”
“Ela não é parte disso.”
“Ela é a única razão de você ter vindo tão rápido sem seu exército inteiro atrás. Isso a torna muito parte disso.”
Os homens de Rafe se espalharam pelas sombras, silenciosos.
“Última chance, Ashford. Rende-se agora e eu garanto um julgamento justo.”
“Julgamento justo.” Ashford riu. “Você vai me matar no minuto em que eu virar as costas.”
“Eu não sou meu pai,” Rafe disse, a voz firme. “Eu não mato por orgulho.”
“Não. Você mata por controle. É pior.”
Um dos homens de Ashford se moveu de repente, a arma erguendo em direção a Tessa.
Tudo aconteceu rápido demais pra pensar.
Rafe se jogou na frente dela no exato momento em que o tiro saiu.
A dor explodiu no ombro dele, mas ele nem vacilou — girou e desarmou o atirador com um movimento que só vinha de anos de treino que Tessa nunca soube que ele tinha.
Os homens de Rafe avançaram. O armazém explodiu em movimento e gritos.
Tessa se abaixou instintivamente, os reflexos de anos em zona de guerra assumindo o controle, procurando cobertura, avaliando feridos.
Em segundos, foi tudo. Os homens de Ashford desarmados ou no chão. Malcolm segurando Ashford pelo colarinho contra uma coluna de metal.
Rafe estava de pé, o ombro sangrando, mas os olhos fixos em Tessa, verificando se ela estava inteira antes de qualquer outra coisa.
“Você está bem?”
“Você levou um tiro por mim.”
“Eu levaria de novo.”
Tessa correu até ele, as mãos já indo direto pro ferimento, os instintos médicos assumindo antes mesmo do medo poder alcançá-la.
“Fica parado.”
“Tessa—”
“Fica parado, Rafe.”
Ele obedeceu, e havia algo quase engraçado, no meio de todo aquele caos, em ver o homem mais temido da cidade obedecendo uma ordem sussurrada com a voz tremendo.
Atrás deles, Ashford gritava alguma coisa sobre advogados e processos, mas ninguém prestava atenção.
Rafe olhou pra Tessa enquanto ela trabalhava, o rosto concentrado, as mãos firmes apesar do tremor no resto do corpo dela.
“Da primeira vez que você me tratou,” ele disse baixo, “eu pensei que fosse pena.”
“E agora?”
“Agora eu sei que não foi. Ninguém arrisca a própria vida por pena.”
Tessa parou por um segundo, os olhos encontrando os dele.
“Eu não arrisquei minha vida por você essa noite, Rafe. Eu escolhi ficar. Tem diferença.”
Semanas depois, a mansão dos Calder estava cheia de luz de novo — não de sirenes, dessa vez, mas de velas de aniversário.
June soprou as velas com o braço já curado, rindo de alguma piada que Malcolm tinha acabado de contar.
Rafe estava parado perto da porta da varanda, o ombro ainda um pouco rígido, observando a cena com uma expressão que ninguém tinha visto nele antes — algo parecido com paz.
Tessa se aproximou por trás, os braços cruzados contra o frio da noite.
“Você promete que essa vai ser a última vez que eu preciso tirar uma bala de você?”
“Não posso prometer isso.”
“Justo.”
Ele se virou pra ela, e o peso de tudo que tinham passado pareceu, por um instante, aliviar.
“Ainda devo aquele jantar,” ele disse.
“Devia.”
“Amanhã?”
“Amanhã.” Ela sorriu, um sorriso pequeno e real. “Sem tiros, sem primos traidores, sem investidores raivosos.”
“Prometo tentar.”
Ela riu, e o som se misturou com a música vinda de dentro da casa, com as vozes de June e Malcolm, com a vida normal que os dois estavam, aos poucos, aprendendo a construir no meio de tudo que nunca seria completamente normal.
Rafe segurou a mão dela, a mesma mão que uma vez tinha empurrado o peito dele numa rua molhada de chuva e sangue, e dessa vez ninguém ao redor mudou de posição, ninguém travou, ninguém esperou pra ver o que ele faria.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, o que ele fazia não era nada assustador.
Era só segurar a mão de alguém que tinha escolhido ficar.
E você — já teve que escolher entre a segurança e a pessoa que fazia seu coração acelerar de um jeito que dava até medo?
