Chapter 4
— Precisamos sair daqui agora — disse Vittorio, a voz recuperando o controle mesmo com o peso da traição ainda fresco. — Se Rafael sabe que estamos aqui, ele vai vir atrás do Matteo antes que a gente consiga colocar ele em segurança.
— Pra onde a gente vai? — perguntou Elena, ajudando o irmão a ficar de pé, o corpo dele ainda fraco pelas horas amarrado à cadeira.
— Uma das minhas casas seguras. Só eu e duas pessoas de confiança absoluta sabem da localização.
— Confiança absoluta como a que você tinha no Rafael? — A pergunta escapou antes que Elena pudesse se conter.
Vittorio a encarou, a dor visível por trás dos olhos escuros.
— Ponto justo — admitiu ele. — Mas dessa vez, são pessoas que eu testei há anos, em situações que Rafael nunca esteve.
Levaram Matteo até o carro, os homens de Vittorio formando um perímetro apertado ao redor deles enquanto atravessavam o armazém escuro. Cada sombra parecia esconder uma ameaça.
No carro, a caminho da casa segura, Matteo finalmente conseguiu respirar fundo o suficiente para contar tudo com mais detalhes.
— Eu não devia ter ficado olhando — disse ele, a voz ainda trêmula. — Mas eu vi o Rafael entregando um envelope grosso pro Carlos, e o Carlos falou algo tipo “isso cobre o silêncio de todo mundo aqui”. Foi quando eu entendi que não era um carregamento normal.
— Você contou pra alguém antes de sumir? — perguntou Vittorio.
— Não. Eu tava com medo. Pensei em ir até você, mas não sabia se podia confiar. Todo mundo dizia que você era perigoso.
Vittorio sentiu a ironia amarga daquela frase — o mesmo medo que tinha afastado o garoto de procurar ajuda tinha quase custado a vida dele.
Elena, sentada ao lado do irmão, olhou para Vittorio.
— O que você vai fazer com o Rafael?
Vittorio olhou pela janela, o rosto banhado pela luz intermitente dos postes da rua.
— O que a organização exige quando alguém trai o próprio sangue.
— E o que isso significa exatamente?
Ele não respondeu de imediato.
— Significa que quinze anos de lealdade não valem nada diante da vida de um garoto inocente. Significa que eu vou olhar nos olhos de um homem que considerava um irmão e fazer o que precisa ser feito.
Elena sentiu um arrepio, mas também algo mais complicado — um misto de medo e respeito por um homem que, apesar de tudo, parecia genuinamente atormentado pela traição, e não indiferente a ela.
Chegaram à casa segura pouco antes da meia-noite, um chalé discreto nos arredores da cidade, cercado por árvores altas e sem placas de identificação. Dois homens já esperavam do lado de fora, armados, alertas.
Assim que entraram, o telefone de Vittorio tocou. Ele olhou o número e sua expressão mudou instantaneamente.
— É o Rafael — disse ele, baixinho, mostrando a tela para os homens ao redor.
Elena prendeu a respiração.
Vittorio atendeu, colocando no viva-voz.
— Rafael.
— Vittorio. — A voz do outro lado soava calma, quase gentil, o que tornava tudo mais perturbador. — Soube que você encontrou o garoto.
— Encontrei.
— Isso complica as coisas.
— Complica pra você — corrigiu Vittorio, os olhos fixos em Elena e Matteo do outro lado da sala. — Quinze anos, Rafael. E você decide vender armas pelas minhas costas e matar um homem pra esconder isso.
Um silêncio pesado.
— Você não entende as pressões que eu enfrentei — disse Rafael, finalmente, a voz perdendo a calma. — Anos servindo você, vendo você tomar todas as decisões, todo o crédito, enquanto eu ficava na sombra. Eu mereço mais do que migalhas.
— Então devia ter conversado comigo. Não vendido a segurança de toda a organização por dinheiro.
— É tarde demais pra essa conversa — disse Rafael. — E é tarde demais pro garoto também. Ele viu meu rosto. Ele não pode continuar respirando.
Vittorio sentiu o sangue gelar.
— Se você chegar perto dele, ou da irmã dele, eu mesmo vou terminar isso com minhas próprias mãos.
Uma risada baixa, fria, veio do outro lado.
— Você sempre foi sentimental demais pra esse trabalho, Vittorio. Foi por isso que eu soube que podia agir pelas suas costas por tanto tempo sem que você percebesse.
A ligação caiu.
Vittorio ficou parado, o telefone ainda na mão, o silêncio da sala pesando sobre todos.
— Ele vai vir atrás de nós — disse Elena, a voz baixa.
Vittorio olhou para ela, depois para Matteo, e finalmente assentiu, a determinação substituindo qualquer traço de hesitação.
— Sim. E quando ele vier, eu vou estar esperando.
