Chapter 5
A noite passou tensa, ninguém dormindo direito no chalé isolado. Vittorio posicionou homens em cada entrada, cada janela vigiada, cada som do lado de fora examinado com atenção redobrada.
Elena encontrou Vittorio na cozinha por volta das três da manhã, ambos incapazes de descansar.
— Ele vai mesmo vir atrás da gente? — perguntou ela, servindo duas xícaras de café que nenhum dos dois realmente queria beber.
— Rafael não é do tipo que foge. Ele vai tentar resolver isso pessoalmente, antes que eu consiga reunir provas suficientes pra expor ele diante dos outros chefes.
— E se ele conseguir?
Vittorio olhou para ela, a exaustão visível nos olhos escuros.
— Não vai conseguir. Eu não vou deixar.
Elena se sentou à mesa, as mãos ao redor da xícara quente.
— Por que você continua fazendo isso? Se colocando em risco por mim e pelo Matteo? A gente é praticamente estranho pra você.
Vittorio ficou em silêncio por um momento, escolhendo as palavras.
— Porque em quarenta e dois anos, eu construí uma vida baseada em controle e distância. Nunca deixei ninguém entrar de verdade, porque isso sempre pareceu perigoso demais. — Ele olhou para ela diretamente. — Mas quando você entrou naquele escritório, exigindo respostas sem medo de mim, eu vi algo que não via há muito tempo. Coragem de verdade. E isso me lembrou por que eu comecei a fazer esse trabalho, antes de esquecer completamente quem eu era.
Elena sentiu o peito apertar com a sinceridade inesperada da resposta.
— Isso é mais do que eu esperava ouvir de um chefe de máfia.
— Eu também não esperava dizer isso — admitiu ele, um leve sorriso cansado aparecendo pela primeira vez.
O momento foi interrompido por um dos homens de Vittorio entrando apressado.
— Chefe. Câmeras do perímetro captaram movimento na estrada de acesso. Dois carros, se aproximando devagar.
Vittorio se levantou instantaneamente, toda a suavidade do momento anterior desaparecendo, substituída pela dureza que tinha mantido por décadas.
— Posições — ordenou ele. — Ninguém atira até eu dar o sinal.
Elena correu até o quarto onde Matteo descansava, acordando-o com cuidado.
— Precisamos ficar longe das janelas — disse ela, puxando o irmão para um canto mais protegido da casa.
Do lado de fora, os carros pararam a uma distância segura. Vittorio observou pela fresta da cortina enquanto três figuras desciam, Rafael à frente, o rosto iluminado pela luz fraca dos faróis.
— Vittorio! — gritou Rafael, a voz ecoando pela propriedade. — Vamos conversar como homens, sem sangue desnecessário.
Vittorio saiu para a varanda, sozinho, apesar dos protestos silenciosos dos próprios homens.
— Você trouxe armas pra uma conversa, Rafael?
— Precaução. Você faria o mesmo.
— Eu não trairia quinze anos de lealdade por dinheiro.
Rafael deu alguns passos à frente, as mãos visíveis, num gesto calculado de boa-fé que não enganava ninguém.
— Não é sobre dinheiro, Vittorio. Nunca foi só sobre dinheiro. É sobre ser visto, finalmente, depois de anos sendo apenas a sombra do seu nome.
— Então devia ter pedido reconhecimento, não vendido armas pelas minhas costas e matado um homem pra esconder isso.
— O Carlos ia falar. Eu não tive escolha.
— Sempre tem escolha. — A voz de Vittorio ficou fria como aço. — Você escolheu a errada.
Rafael parou, olhando para a casa atrás de Vittorio.
— Me entrega o garoto, e eu deixo você e a mulher em paz. Isso é só entre mim e a testemunha.
— Não.
— Vittorio, pensa bem antes de…
— Eu já pensei. — Vittorio deu um passo à frente, sem medo. — O garoto fica comigo. E você vai responder por tudo que fez, diante de todos os outros chefes, do jeito que as regras exigem.
O rosto de Rafael endureceu, a máscara de calma finalmente desmoronando.
— Então você escolheu o lado errado, Vittorio. Depois de tudo que construímos juntos.
Ele ergueu a mão em um sinal silencioso para os homens atrás dele.
E o som de armas sendo destravadas cortou a noite silenciosa.
