Chapter 1
Seis mulheres tinham fugido do quadragésimo andar em menos de um mês, e cada boato sobre o misterioso bilionário fazia ele parecer mais um monstro do que um homem. Mesmo assim, uma entrevista errada, um salto quebrado e um acidente humilhante me jogaram direto no escritório do chefe da máfia siciliana mais temido de Chicago — onde um único erro seria capaz de revelar segredos poderosos o bastante pra destruir o império dele.
Seis secretárias tinham desaparecido da Rossy Corporation em quatro semanas. Algumas saíram chorando, uma entrou no elevador com sangue na blusa, duas nunca voltaram pra pegar as coisas que deixaram, e outra abandonou uma carreira de dez anos e saiu correndo pra dentro de uma nevasca em Chicago sem nem pegar o último salário.
Foi aí que eu entrei pela porta da frente com cinquenta e três dólares na conta, um salto quebrado, e absolutamente nenhuma ideia de que tinha acabado de aceitar uma entrevista com o homem mais temido da cidade.
Todo mundo esperava que eu durasse uma hora.
Em vez disso, eu descobriria o erro contábil que salvou Lorenzo Rossy duzentos mil dólares, exporia o microfone escondido dentro da sede da empresa, e descobriria a verdade por trás de cada secretária que supostamente tinha fugido dele.
Quando o inverno acabasse, eu teria colocado o império inteiro dele de joelhos.
A parte inacreditável?
Ele deixaria.
O quadragésimo andar tinha cheiro de água sanitária e café expresso fresco. Depois, eu ia descobrir que Lorenzo insistia nos dois: a água sanitária apagava qualquer bagunça, e o café mantinha todo mundo alerta o suficiente pra sobreviver trabalhando pra ele.
Quando as portas do elevador abriram, eu me senti fora de lugar na hora. Chuva escorria do meu blazer grande demais, comprado em brechó, mechas de cabelo castanho molhado grudadas no rosto, e meu sapato direito estava quase três centímetros mais baixo que o esquerdo depois que o salto quebrou no meio da rua no centro.
Um homem de ombros largos e cabelo escuro me olhou de cima a baixo sem sorrir.
“Você é a secretária?”
“Estou me candidatando pra ser a secretária.”
“Você parece machucada.”
“Minha dignidade é a única baixa confirmada.”
Pela primeira vez, achei que vi o canto da boca dele se mexer.
Ele abriu duas portas enormes.
“Entre.”
O escritório do outro lado parecia menos um local de trabalho e mais uma sala do trono. No fundo, sentado atrás de uma mesa esculpida numa única pedra negra maciça, estava Lorenzo Rossy, num terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado, sem um vinco sequer. A expressão dele não mudou nem um pouco enquanto os olhos cinza-frios dele passavam pela minha roupa encharcada até o sapato quebrado.
“Sente.”
A voz dele era calma, baixa, e de alguma forma mais fria que a chuva de fevereiro lá fora.
Eu me apressei pra frente.
Meu salto quebrado cedeu sob meu peso.
Antes que eu conseguisse me segurar, cambaleei em direção à mesa dele, e minha bolsa velha bateu contra a pedra polida. O fecho quebrado se abriu de vez, espalhando tudo que eu tinha pela superfície impecável.
Uma barrinha de cereal amassada caiu em cima de contratos de embarque caríssimos. Analgésicos quicaram no teclado dele. Moedas rolaram pra todo lado. Absorventes internos, dois romances, um carregador de celular todo emaranhado e meu livro de imposto de renda cheio de marca-texto se espalharam pela mesa como provas do pior dia da minha vida.
Uma caneta gel rosa berrante rolou até parar bem em frente às mãos cruzadas de Lorenzo.
Silêncio.
Meu rosto ficou a centímetros do homem mais perigoso de Chicago.
“Eu… sinto muito,” sussurrei. “O trem quebrou, meu salto quebrou, minha bolsa quebrou, e aparentemente tudo que eu possuo declarou guerra contra mim.”
Recolhendo minhas coisas em pânico, acabei pegando sem querer um absorvente e três moedas.
“Deixa,” Lorenzo disse.
Congelei.
“Você está atrasada.”
“O trem parou perto da Belmont.”
“Você devia ter se planejado melhor.”
“Eu saí quarenta minutos antes.”
“Não foi cedo o suficiente.”
“Não,” admiti baixinho. “Aparentemente não foi.”
Ainda segurando o absorvente, notei os olhos dele indo até minha mão.
Foi aí que percebi que ele tinha visto.
Tentando preservar o pouco de dignidade que me restava, escondi devagar a mão atrás das costas.
“Sr. Rossy,” eu disse, respirando fundo e trêmula, “eu realmente preciso desse emprego. Eu digito noventa palavras por minuto, sei reconstruir planilhas danificadas, e já organizei sete anos de registros financeiros que estavam guardados dentro de sacolas de supermercado.”
Ele me analisou sem piscar.
“A última secretária não fazia perguntas.”
Engoli seco.
“Ela gritava.”
Pisquei, sem saber se ele estava brincando.
“Você… gritou com ela?”
