Chapter 4
“Um microfone,” repeti, a voz quase sumindo. “Aqui? Nesse escritório?”
“Atrás daquele quadro,” Lorenzo disse, apontando pra uma pintura abstrata pendurada perto da estante. “Encontrei há três meses, por acaso, procurando um documento que tinha caído atrás dele.”
“E você nunca removeu?”
“Removê-lo só diria pra quem colocou que eu descobri,” ele explicou. “Deixá-lo onde está me permite controlar o que a pessoa do outro lado escuta.”
Eu olhei pro quadro com um novo tipo de terror.
“Então tudo que você falou nessa sala nos últimos três meses—”
“Foi cuidadosamente escolhido,” ele completou. “Exceto agora.”
Meu coração disparou.
“Isso significa que quem estiver ouvindo sabe que eu encontrei a planilha.”
“Significa exatamente isso,” Lorenzo disse, e pela primeira vez desde que eu o conhecia, vi urgência real nos movimentos dele. Ele foi até a porta, trancou, e voltou pra perto de mim, a voz baixa a ponto de eu ter que me inclinar pra ouvir.
“A partir de agora, tudo que precisarmos discutir sobre isso, discutimos fora desse prédio.”
Concordei, ainda processando o quanto minha vida tinha mudado nas últimas duas semanas.
Naquela noite, Lorenzo me levou até um pequeno restaurante italiano longe do centro, um lugar sem placa na porta, onde o dono o cumprimentou pelo nome e nos levou direto pra uma mesa nos fundos.
“Você confia nessas pessoas?” perguntei, olhando ao redor.
“Confio nelas com minha vida há vinte anos,” ele disse. “É mais do que posso dizer sobre metade das pessoas que trabalham no meu próprio prédio.”
Comemos quase em silêncio no início, até que ele finalmente falou.
“Meu contador-chefe, Salvatore, trabalha comigo desde que eu tinha vinte e três anos,” Lorenzo disse. “Ele é praticamente família. Mas ele é a única outra pessoa com acesso completo àquelas contas.”
“Você acha que é ele?”
“Não quero acreditar que seja,” Lorenzo admitiu, e havia algo cru na forma como ele disse isso — a primeira vez que eu o via demonstrar qualquer coisa parecida com dor. “Mas os números não mentem.”
“Então vamos confirmar antes de acusar,” eu disse. “Se for ele, os padrões vão se repetir. Se eu conseguir acessar mais três meses de registros anteriores, consigo provar um padrão completo, não só coincidência.”
Lorenzo me olhou por um longo momento.
“Por que você está fazendo isso?” ele perguntou. “Você poderia ter saído correndo como as outras. Ninguém te culparia.”
“Porque alguém tentou te roubar bem debaixo do seu nariz e você nem percebeu,” eu disse. “E isso, sinceramente, me deixa mais brava do que assustada.”
Ele riu — um som baixo, rouco, genuíno, o primeiro riso de verdade que eu tinha ouvido dele.
Foi nesse exato momento que o celular dele vibrou na mesa.
Ele olhou a tela, e o riso sumiu completamente do rosto dele.
“O que foi?” perguntei.
“Salvatore,” ele disse devagar. “Ele quer se encontrar comigo. Sozinho. Agora.”
