A chuva batia contra as janelas do cobertura do chão ao teto como mil dedos desesperados tentando romper o vidro

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Chapter 4

Os dias seguintes se transformaram numa versão estranha e assustadora da minha vida antiga. Homens que eu nunca tinha visto passaram a circular pelo cobertura como sombras permanentes. As janelas ganharam uma película escura. Marcus mal saía do apartamento, e quando saía, era cercado por tanta segurança que parecia um chefe de estado, não um marido indo trabalhar.

E, pela primeira vez, ele começou a jantar comigo.

— Você não precisa fazer isso — falei na terceira noite, enquanto ele se sentava à mesa longa que antes ficava vazia, apenas para mim e para o eco dos meus próprios talheres.

— Fazer o quê?

— Fingir que se importa de repente.

Ele largou o garfo, os olhos duros.

— Eu não estou fingindo nada.

— Três anos, Marcus. Três anos de silêncio, de quartos separados, de me tratar como um objeto na sua casa, e agora, do nada, você quer jantar comigo, cuidar do meu pé, me contar sobre inimigos perigosos?

— Eu sei que pareço um hipócrita.

— Você parece um homem assustado — corrigi, e vi algo estalar no rosto dele, porque eu tinha acertado.

Ele ficou em silêncio por um longo momento, olhando para o prato sem realmente vê-lo.

— Eu casei com você porque devia dinheiro ao seu pai — ele disse finalmente, e aquilo me pegou completamente de surpresa. — Não, espera, deixa eu corrigir isso. Seu pai devia dinheiro a mim, indiretamente, através de uma cadeia de favores que remonta a anos atrás. Mas a dívida real, a dívida que importava, era minha para com o pai dele.

— Do que você está falando?

— Meu pai e o seu foram sócios, há muito tempo, antes de tudo dar errado. — A voz dele ficou distante, presa em memórias antigas. — Quando as coisas desandaram, meu pai prometeu proteção à família dele em troca de silêncio sobre certos… negócios. Uma dívida de honra, não de dinheiro. Quando meu pai morreu e eu assumi tudo, essa promessa veio junto.

— Então o casamento não foi sobre a dívida do meu pai comigo.

— Foi sobre a minha dívida com o seu avô, que se estendeu ao seu pai, e que eu decidi pagar mantendo você segura da única forma que sabia. — Ele finalmente ergueu os olhos para mim. — Casando com você. Colocando você sob minha proteção de um jeito que ninguém pudesse questionar.

Fiquei sem fôlego, três anos de suposições desmoronando de uma vez.

— Você nunca me contou isso.

— Porque contar significava explicar quem eu realmente sou, e eu tinha medo de que você olhasse para mim do jeito que está olhando agora.

— E como estou olhando?

— Como se eu fosse ao mesmo tempo seu resgate e sua prisão.

A verdade da frase doeu, porque era exatamente assim que eu me sentia, e sempre tinha sentido.

— Você me manteve trancada nesta casa por três anos como se eu fosse frágil demais para saber a verdade — falei, a raiva finalmente encontrando voz depois de tanto tempo engolida. — Você me tratou como um segredo bem guardado, não como uma esposa.

— Eu sei.

— “Eu sei” não é suficiente, Marcus.

— O que você quer que eu diga? — A voz dele subiu, algo cru e desesperado vazando pela primeira vez. — Que eu tenho sonhado com você todas as noites nesses três anos e nunca tive coragem de atravessar aquele corredor até o seu quarto porque não sabia se você me queria ou só me tolerava por medo?

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Você… — Minha voz falhou. — Você sonha comigo?

Ele desviou o olhar, e pela primeira vez em três anos, vi Marcus Valentino, o homem que fazia adultos tremerem com uma única frase, parecer envergonhado.

— Todas as noites — ele admitiu baixinho.

Antes que eu pudesse responder, um estrondo ecoou lá embaixo, seguido de gritos e o som inconfundível de vidro se estilhaçando em grande escala.

Marcus se levantou de um salto, o homem vulnerável desaparecendo instantaneamente, substituído pelo predador que eu tinha visto na primeira noite.

— Fica atrás de mim — ele ordenou, já puxando uma arma de algum lugar sob o paletó que eu nem sabia que ele carregava.

— Marcus, o que está…

— O Salazar chegou antes do que eu esperava.

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