Chapter 3
Não dormi naquela noite. Fiquei sentada na cama, ouvindo vozes abafadas vindo do escritório de Marcus, dois andares abaixo do quarto, impossíveis de entender através das paredes grossas do cobertura.
Por volta das quatro da manhã, os sons de passos e vozes finalmente cessaram. Ouvi a porta do elevador se fechar, levando os homens embora. Depois, silêncio.
Achei que Marcus tinha saído com eles. Mas quando finalmente cedi ao cansaço e desci para pegar um copo de água pouco antes do amanhecer, encontrei ele sentado sozinho na cozinha escura, um copo de uísque intocado na sua frente, os olhos perdidos em algum ponto distante.
— Você devia estar dormindo — ele disse, sem se virar, como se soubesse que eu estava ali antes mesmo de eu fazer barulho.
— Você também.
Um som que quase parecia um riso escapou dele, seco e sem humor.
— Justo.
Me aproximei, hesitante, e me sentei na cadeira do outro lado da ilha da cozinha. Ele finalmente ergueu os olhos para mim, e o que vi ali me surpreendeu: cansaço. Cansaço de verdade, o tipo que não se disfarça com dinheiro ou poder.
— O que aconteceu ontem à noite? — perguntei, com cuidado, como quem anda em gelo fino.
Ele demorou tanto para responder que achei que ele fosse ignorar a pergunta, como sempre fazia.
— Um dos meus homens foi descuidado — ele disse finalmente. — Deixou informação vazar para as pessoas erradas. Informação sobre… — ele parou, os dedos apertando o copo. — Sobre você.
Meu coração falhou uma batida.
— Sobre mim?
— O Salazar sabe que você existe. Sabe que é minha esposa. — Os olhos dele encontraram os meus, e havia algo cru neles agora, algo que eu nunca tinha visto no homem frio que eu conhecia. — E o Salazar adoraria muito usar isso contra mim.
— Quem é Salazar?
— Alguém que eu devia ter matado há dois anos e não matei. — A voz dele saiu áspera. — Um erro que pode custar caro agora.
Fiquei em silêncio, processando. Três anos vivendo naquela casa, e essa era a primeira vez que Marcus me contava qualquer coisa sobre o mundo dele.
— Por que está me contando isso agora? — perguntei. — Você nunca me disse nada. Nunca.
Ele finalmente bebeu um gole do uísque, o rosto se contorcendo levemente com o ardor.
— Porque eu percebi ontem, quando aquele vaso quebrou e eu vi você lá, encolhida, com medo… — ele parou, escolhendo as palavras com cuidado incomum. — Percebi que passei três anos tratando você como um problema que eu não pedi para ter. E isso foi um erro.
— Um erro — repeti, a palavra amarga na minha boca. — Eu sou um erro?
— Não. — Ele se levantou tão rápido que a cadeira raspou no chão. Contornou a ilha até ficar na minha frente, mais perto do que jamais tinha ficado desde a noite anterior. — O erro foi eu. Foi eu ter te tratado como uma obrigação em vez de…
Ele não terminou a frase.
— Em vez de? — pressionei, o coração martelando.
Os olhos dele desceram para os meus lábios por uma fração de segundo antes de voltarem a encontrar meu olhar, e algo nele parecia estar em guerra consigo mesmo.
— Você devia ter medo de mim — ele disse baixinho. — Todo mundo tem.
— Eu não tenho medo de você, Marcus. Nunca tive.
— Devia ter.
— Por quê?
— Porque eu sou capaz de coisas que fariam você me odiar se soubesse. — A voz dele quebrou de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — E porque, se o Salazar chegar perto de você, eu vou fazer coisas ainda piores para protegê-la, e eu não sei se depois disso vai sobrar alguma coisa em mim que valha a pena você amar.
A confissão pairou entre nós, pesada e impossível de ignorar.
— Quem disse que eu quero te amar? — sussurrei, mas minha voz tremia, entregando a mentira.
Um fantasma de sorriso tocou os lábios dele, triste e cansado.
— Ninguém precisa dizer, Elena. Eu vejo do jeito que você me olha.
Antes que eu pudesse responder, o telefone dele vibrou na mesa, quebrando o momento como vidro se estilhaçando. Ele olhou a tela, e todo o cansaço nos olhos dele se transformou em algo duro e perigoso.
— O que foi? — perguntei, o medo voltando com força total.
— Salazar mandou uma mensagem. — Marcus se levantou, já se recompondo na armadura fria que eu conhecia tão bem. — Ele sabe onde moramos.
