Chapter 2
O sangue escorria fino pelo meu pé, manchando o tapete persa que eu tinha tanto medo de sujar. Mas Marcus não parecia se importar com o tapete. Segurava meu cotovelo com uma firmeza que não admitia recusa, os olhos cinzentos fixos no meu rosto.
— Senta — ele disse, apontando para o sofá de couro italiano.
— Eu posso ir para o meu quarto, não precisa…
— Senta, Elena.
Meu nome na boca dele soou estranho. Ele quase nunca me chamava pelo nome. Na maioria das vezes era só “você”, como se um nome carregasse intimidade demais para o que éramos.
Me sentei. Ele se ajoelhou na minha frente, o que me pegou tão de surpresa que esqueci de respirar por um segundo. Um homem como Marcus Valentino não se ajoelhava para ninguém.
Alessandro apareceu com o kit de primeiros socorros e o entregou sem dizer uma palavra, os olhos evitando os meus com um cuidado estudado. Depois recuou até a porta, junto com os outros dois homens, deixando uma distância respeitosa que ainda assim parecia vigilância.
Marcus abriu o kit e pegou minha perna, apoiando meu calcanhar na coxa dele. O gesto era tão íntimo que meu rosto esquentou.
— Isso vai arder — ele avisou, antes de limpar o corte com álcool.
Eu mordi o lábio para não fazer barulho. A dor era aguda, mas era o toque dele que me deixava mais tonta.
— Você não precisa fazer isso pessoalmente — falei, tentando preencher o silêncio que estava ficando pesado demais. — Alessandro podia…
— Alessandro não é médico. E eu não confio em ninguém mais nesta casa com uma faca perto do seu pé.
Havia algo estranho na frase. Quase protetor. Eu não sabia o que fazer com aquilo, então fiquei quieta enquanto ele terminava de limpar o ferimento e colocava um curativo com dedos surpreendentemente delicados para um homem cujas mãos eu sabia que já tinham feito coisas muito piores.
— Pronto — ele disse, mas não se levantou. Continuou ajoelhado, meu pé ainda apoiado na coxa dele, os olhos subindo devagar do curativo até o meu rosto.
Fiquei presa naquele olhar. Em três anos, Marcus nunca tinha me olhado assim — como se estivesse realmente me vendo, e não apenas notando minha presença.
— Por que você estava aqui embaixo? — ele perguntou, a voz mais baixa agora. — Sabe que devia estar no seu quarto quando eu trago trabalho para casa.
— Eu não conseguia dormir.
— Três anos e eu nunca soube disso. Que você não dorme.
Havia algo na forma como ele disse aquilo — quase uma acusação a si mesmo — que me fez engolir em seco.
— Você nunca perguntou — respondi, antes que pudesse me conter.
Os olhos dele escureceram, mas não de raiva. De algo mais complicado.
— Não — ele concordou baixinho. — Eu não perguntei.
O silêncio que se seguiu não era como os outros silêncios daquela casa, vazios e frios. Esse tinha peso, tinha eletricidade.
— Marcus. — A voz de Alessandro cortou o momento, tensa. — Precisamos resolver aquele assunto. Agora.
Alguma coisa fechou no rosto de Marcus, a máscara de frieza voltando no lugar tão rápido que quase me fez duvidar do que tinha visto segundos antes.
Ele se levantou, ajeitando as mangas da camisa.
— Vá para o quarto — ele disse, mas o tom não era mais o mesmo comando distante de sempre. Era quase… uma preocupação disfarçada de ordem. — Tranque a porta.
— Por quê?
— Porque eu pedi. — Ele fez uma pausa na porta, sem se virar completamente. — E porque hoje as coisas ficaram mais perigosas do que eu queria que soubesse.
Aquilo me gelou o sangue mais do que qualquer frieza dele nos últimos três anos.
— Marcus, o que está acontecendo?
Ele não respondeu. Apenas trocou um olhar carregado com Alessandro, um daqueles olhares silenciosos entre homens que compartilham segredos de sangue, e saiu da sala com passos rápidos, os outros dois homens seguindo atrás como sombras.
Fiquei sozinha na sala, o curativo ainda quente no meu pé, o eco da mão dele ainda vivo no meu cotovelo, e pela primeira vez em três anos, o medo que senti não era do homem que eu tinha casado.
Era medo de perdê-lo antes de sequer conhecê-lo de verdade.
