Chapter 6
Duas semanas depois, o cobertura já não parecia mais um mausoléu.
O sol da manhã entrava pelas janelas enormes, banhando a sala de uma luz dourada que eu nunca tinha notado antes, talvez porque nunca tinha ficado ali tempo suficiente, à vontade, para reparar.
Marcus estava na cozinha, algo que eu jamais imaginaria vê-lo fazer há um mês, tentando desajeitadamente preparar café da manhã enquanto eu ria da bagunça de farinha espalhada pela bancada.
— Isso definitivamente não é como minha mãe fazia panquecas — comentei, apoiada no batente da porta.
— Sua mãe não teve que aprender isso sozinha às seis da manhã porque decidiu, do nada, que queria surpreender a esposa — ele resmungou, mas havia um sorriso genuíno no canto da boca dele, um que eu tinha aprendido a adorar nas últimas duas semanas.
Muita coisa tinha mudado desde aquela noite. Salazar e sua organização tinham sido completamente desmantelados, e pela primeira vez em anos, Marcus me contou, ele sentia que podia respirar sem olhar constantemente por cima do ombro.
Mas a mudança maior não estava lá fora. Estava dentro daquelas paredes, entre nós dois.
— Meu pai ligou ontem — falei, me sentando no banco da ilha. — Perguntou se podíamos ir visitá-lo esse fim de semana. Minha irmã vai estar lá também.
Marcus parou o que estava fazendo, os olhos encontrando os meus com uma seriedade repentina.
— Você quer ir?
— Quero. Mas só se você for comigo. De verdade dessa vez, não como… — hesitei — não como o marido perigoso que aparece para lembrar todo mundo de uma dívida antiga.
— Elena. — Ele contornou a ilha e segurou minhas mãos entre as dele, os calos familiares agora, o calor da pele dele algo que eu já não conseguia imaginar viver sem. — Eu vou com você a qualquer lugar que você quiser ir, do jeito que você quiser que eu seja. Não mais como o Marcus que seu pai temia. Como o Marcus que você escolheu conhecer.
— Eu não escolhi casar com você — lembrei, mas sem mágoa na voz, apenas constatando um fato que já não doía mais.
— Não — ele concordou suavemente. — Mas está escolhendo ficar agora. Isso é diferente. Isso é real.
E ele tinha razão. Porque nos últimos catorze dias, eu tinha aprendido mais sobre o homem que era meu marido do que em três anos inteiros de silêncio. Aprendi que ele ainda tinha pesadelos com coisas que fez no passado, e que segurava minha mão até dormir de novo. Aprendi que ele lia até tarde da noite, escondido, livros de poesia que jamais admitiria a mais ninguém. Aprendi que o riso dele, quando genuíno, transformava completamente aquele rosto de traços duros.
E aprendi, acima de tudo, que o medo que eu tinha sentido durante três anos não era dele.
Era do vazio que existia entre nós, um vazio que finalmente, devagar, começava a se preencher.
— Sabe — falei, entrelaçando meus dedos aos dele —, aquela primeira noite, quando o vaso quebrou… eu tinha tanto medo de que você ficasse com raiva de mim.
— E em vez disso?
— Em vez disso, você me tocou pela primeira vez em três anos, e foi a coisa mais gentil que alguém já tinha feito por mim nessa casa inteira.
Marcus levantou minha mão e beijou os nós dos meus dedos, um gesto simples que carregava mais ternura do que qualquer joia cara que ele já tinha me dado.
— Prometo que não vai ser a última — ele sussurrou.
Lá fora, a cidade continuava seu ritmo de sempre, indiferente ao pequeno milagre que acontecia naquele cobertura que antes parecia uma prisão dourada.
Mas para mim, dentro daquelas paredes, tudo tinha mudado.
O silêncio que antes me sufocava agora era compartilhado, cheio de significado, cheio de promessas ainda por cumprir.
E pela primeira vez desde que atravessei aquela porta como uma garota assustada de vinte e um anos, eu finalmente me senti em casa.
Já se sentiu assim, presa numa vida que não escolheu, até descobrir que talvez, escondido ali, existisse algo que valesse a pena ficar e lutar por isso?
