Chapter 1
A luz da manhã mal tinha chegado ao meu apartamento minúsculo em Portland quando a mulher no meu sofá olhou para a minha blusa de moletom, depois voltou o olhar pra mim com medo nos olhos.
— Ontem à noite… você tirou minha roupa?
Naquele instante, eu soube que uma resposta errada podia transformar tudo o que tinha acontecido entre a gente em algo que nenhum de nós dois conseguiria desfazer.
Por horas, eu tinha ficado ensaiando versões mais fáceis da verdade. Podia ter dito que ela mesma tinha se trocado, ou suavizado o que aconteceu até parecer inofensivo, mas depois de ficar vendo ela dormir enquanto eu passava a noite acordado numa poltrona velha, mentir de repente parecia pior do que qualquer outra coisa.
— Desculpa — falei baixinho. — Você estava congelando e encharcada, então eu ajudei a tirar a roupa molhada e coloquei você em algo seco. Desviei o olhar o máximo que consegui, mas sim, eu ajudei você a se trocar.
Rebecca me encarou sem piscar.
— Se isso passou dos limites, a culpa é minha — completei. — Eu só não sabia mais o que fazer, porque você mal conseguia ficar em pé.
A geladeira pequena zunia atrás de mim enquanto a chuva batia contra a escada de incêndio. Ela olhou para a minha blusa desbotada do Portland Trail Blazers, caindo frouxa de um dos ombros, e pressionou uma mão trêmula contra a testa.
— Aconteceu mais alguma coisa?
— Não.
A resposta saiu tão rápido que até eu ouvi o desespero nela.
— Você dormiu no sofá — continuei, apontando para a poltrona perto da janela. — Eu fiquei ali a noite inteira. Não aconteceu mais nada.
Por vários segundos, ela estudou meu rosto como se procurasse algo escondido entre minhas palavras.
Então ela soltou o ar.
— Obrigada.
Aquilo me surpreendeu mais do que raiva teria surpreendido.
— Por quê?
— Por me contar a verdade.
O nome dela era Rebecca Lawson, embora eu não soubesse disso na noite anterior, quando a encontrei. Naquele momento, ela era só uma mulher encharcada, sentada sozinha em frente à livraria Rook & Lantern, na West Burnside, com cara de quem não tinha mais pra onde ir.
Eu tinha acabado de terminar um turno de doze horas na Juniper Street Café, a cafeteria que meu pai deixou pra mim quando morreu. Aos vinte e oito anos, eu ainda estava aprendendo como o luto podia seguir uma pessoa em cada momento comum, até enquanto eu vaporizava leite ou contava o caixa depois de fechar.
Meu pai, Frank, tinha me ligado duas vezes na manhã em que morreu de ataque cardíaco.
Eu ignorei as duas ligações porque a gente tinha brigado na noite anterior.
Nunca houve uma terceira.
Aquele erro me mudou. Desde então, passar por alguém que claramente precisava de ajuda tinha ficado quase impossível, porque uma parte de mim vivia apavorada com a ideia de que ignorar um momento pequeno pudesse virar mais um arrependimento pra carregar pro resto da vida.
Provavelmente foi por isso que reparei na Rebecca.
A chuva caía forte o suficiente pra borrar os semáforos de Portland em manchas vermelhas e verdes quando ela tentou se levantar do banco. Um pé tocou a calçada, o corpo dela balançou violentamente, e antes que eu tivesse tempo de reconsiderar, eu já estava atravessando a rua na direção dela.
O casaco preto dela estava completamente encharcado. O cabelo cor de cobre molhado grudava no rosto, a maquiagem tinha borrado embaixo dos olhos, e ela parecia exausta o suficiente pra desmaiar.
Parei a alguns passos de distância, mantendo as mãos à vista.
— Oi — falei com cuidado. — Você está bem?
Os olhos dela subiram até os meus.
Por um segundo terrível, ela pareceu apavorada.
Então ela sussurrou algo que eu só entenderia muito tempo depois.
— Por favor, não deixa ele me encontrar.
