Chapter 2
Fiquei parado no meio da rua, a chuva escorrendo pelo meu pescoço, esperando ela dizer mais alguma coisa.
Ela não disse.
Só ficou olhando pra mim, tremendo, os lábios quase azuis de frio.
— Você tem algum lugar pra ir esta noite? — perguntei.
Ela balançou a cabeça, um movimento pequeno, quase envergonhado.
— Meu apartamento é ali perto — falei, apontando pra cima da rua. — Não é grande coisa, mas é seco e é seguro. Você pode ficar até parar de chover, ou até de manhã, se precisar.
— Eu não te conheço.
— Eu sei. E não vou te obrigar a nada. Mas você não pode ficar sentada aqui fora com esse frio.
Ela hesitou por um longo momento, olhando pra rua vazia atrás de si, como se checasse alguma coisa que eu não conseguia ver.
Então, finalmente, ela assentiu.
Meu nome é Ethan Cole, e naquela noite eu não fazia ideia de que estava prestes a mudar completamente o rumo da minha vida por causa de uma estranha encharcada numa calçada.
Levei ela até meu apartamento em silêncio, um braço meio apoiado nas costas dela pra ajudar a se manter em pé.
Assim que chegamos, ela desabou no sofá, tremendo tanto que os dentes batiam.
Foi aí que eu percebi que a roupa dela estava tão encharcada que a pele começava a ficar com um tom azulado perigoso.
— Você precisa tirar essa roupa molhada — falei, tentando manter a voz calma, profissional. — Vou pegar algo seco.
Ela só assentiu, os olhos já meio fechados de exaustão.
O resto daquela noite, eu já tinha contado pra ela na manhã seguinte.
Agora, sentados os dois na sala pequena, o silêncio entre nós carregava um peso diferente.
— Por que você estava lá fora sozinha, naquele frio todo? — perguntei, com cuidado.
Ela abraçou os joelhos contra o peito.
— É complicado.
— Tudo bem se você não quiser falar.
— Não é isso.
Ela olhou pra mim, os olhos verdes ainda vermelhos de cansaço.
— É que, se eu falar em voz alta, parece que fica mais real.
Sentei na poltrona em frente a ela, dando espaço, sem pressionar.
— Eu não vou te julgar, seja lá o que for.
Ela respirou fundo.
— Eu fugi de alguém. De um relacionamento que devia ter terminado há muito tempo.
— Ele te machucou?
Ela não respondeu diretamente, mas o silêncio dela disse mais do que qualquer palavra.
— Ele tem contatos — continuou ela, a voz baixa. — Gente que trabalha pra ele em vários lugares. Foi por isso que vim pra Portland, achei que seria longe o suficiente.
— E não foi?
— Ontem à noite, achei que vi o carro dele passando duas vezes pela mesma rua.
Meu estômago se apertou.
— Por isso você estava com tanto medo.
Ela assentiu, os olhos marejando.
— Eu sei que parece loucura pra alguém que nunca passou por isso.
— Não parece loucura nenhuma.
Fiquei olhando pra ela por um momento, pensando em quantas pessoas eu já tinha visto na cafeteria do meu pai, sorrindo pro balcão enquanto escondiam coisas assim por dentro.
— Você pode ficar aqui o tempo que precisar — falei, finalmente. — Não vou perguntar mais nada até você estar pronta pra contar.
Rebecca olhou pra mim como se ninguém tivesse dito isso pra ela em muito tempo.
— Obrigada, Ethan.
E foi a primeira vez, desde que a chuva tinha parado, que eu vi ela sorrir de verdade — pequeno, cansado, mas real.
Foi só mais tarde, quando ela finalmente adormeceu no meu sofá, enrolada no meu moletom velho, que eu olhei pela janela e vi um carro escuro parado do outro lado da rua, os faróis apagados, o motor ligado.
