Chapter 3
Fiquei olhando pra aquele carro por o que pareceram minutos, mas provavelmente foram só segundos.
O motor desligou.
Ninguém saiu.
Fechei a cortina devagar, o coração batendo mais forte do que eu queria admitir, e passei o resto da noite naquela poltrona, alternando entre observar Rebecca dormir e espiar pela fresta da cortina.
Por volta das quatro da manhã, o carro foi embora.
Não contei pra ela sobre isso, não naquela manhã.
Depois da conversa sobre a roupa, depois do alívio dela ao ouvir a verdade, parecia cedo demais pra jogar mais medo em cima dela.
Mas nos dias seguintes, Rebecca ficou.
Ela dormia no sofá, eu voltava pra poltrona todas as noites sem reclamar, e aos poucos uma rotina estranha e gentil foi se formando entre nós dois.
Ela começou a ajudar na cafeteria, sem eu nem pedir.
Lavava xícaras, organizava a prateleira de grãos, aprendia o nome dos clientes regulares mais rápido do que eu esperava.
— Você não precisa fazer isso — falei, numa tarde, vendo ela limpar o balcão com um cuidado quase obsessivo.
— Eu preciso me sentir útil, Ethan. Senão eu só fico pensando.
Entendi aquilo melhor do que ela imaginava.
Foi numa dessas tardes que o telefone da cafeteria tocou, um número que eu não reconheci.
Atendi por reflexo.
Do outro lado, silêncio.
— Alô?
Mais silêncio, só uma respiração leve, quase imperceptível.
Então a ligação caiu.
Não dei muita importância na hora — ligações erradas aconteciam o tempo todo —, mas quando olhei pra Rebecca do outro lado do balcão, o rosto dela tinha ficado completamente pálido.
— O que foi?
— Que horas eram? — perguntou ela, a voz tensa.
— Três e quinze, mais ou menos. Por quê?
Ela não respondeu, só foi até a janela da frente e ficou olhando pra rua por um longo tempo, os braços cruzados com força sobre o peito.
Naquela noite, contei pra ela sobre o carro.
Vi o rosto dela desmoronar aos poucos enquanto eu descrevia os faróis apagados, o motor ligado, as horas que ele ficou parado ali.
— Ele me encontrou — sussurrou ela, mais pra si mesma do que pra mim.
— Você não sabe disso com certeza.
— Eu conheço o jeito dele trabalhar, Ethan. Ele nunca aparece direto. Manda alguém primeiro, só pra deixar eu saber que ele sabe onde eu estou. É assim que ele gosta de fazer as pessoas terem medo.
— Quem é ele, Rebecca?
Ela ficou em silêncio por um longo momento, os olhos fixos num ponto qualquer da parede.
— Se eu te contar o nome dele, você não vai mais conseguir fingir que isso é só uma história de alguém precisando de ajuda.
— Eu não preciso fingir nada. Eu quero saber.
Ela finalmente olhou pra mim, os olhos cheios de um medo que eu ainda não tinha visto ali antes, nem na primeira noite.
— O nome dele é Victor Kade.
O nome não significava nada pra mim naquele momento.
Eu não fazia ideia de que, em menos de uma semana, aquele mesmo nome apareceria pichado na porta da cafeteria do meu pai, em letras vermelhas que pareciam sangue seco.
