Chapter 4
Encontrei a pichação numa terça-feira de manhã, antes mesmo de abrir a cafeteria.
VICTOR SABE ONDE VOCÊS DOIS ESTÃO, dizia, em letras grossas e vermelhas na vitrine de vidro.
Fiquei parado na calçada por um longo momento, o balde de limpeza esquecido na minha mão, sentindo o estômago revirar.
Rebecca chegou minutos depois, atrasada como sempre naquela semana, e eu não tive coragem de esconder aquilo dela.
Vi o sangue sumir do rosto dela assim que leu as palavras.
— Precisamos ir embora — disse ela, imediatamente, a voz tremendo. — Agora, Ethan, hoje.
— Não posso simplesmente abandonar a cafeteria do meu pai.
— Então eu vou embora sozinha. Eu não posso deixar você se machucar por minha causa.
Segurei o braço dela antes que pudesse se afastar.
— Rebecca, olha pra mim. Eu escolhi te ajudar naquela noite, e escolho de novo agora. Você não vai enfrentar isso sozinha.
Ela chorou ali mesmo, na calçada, o corpo tremendo com soluços que pareciam vir de muito fundo.
Foi só depois, sentados dentro da cafeteria fechada, as portas trancadas e as luzes apagadas, que ela finalmente contou a história inteira.
Victor Kade não era só um ex-namorado controlador, como eu tinha imaginado.
Ele dirigia uma rede de negócios que, por fora, pareciam legítimos — imobiliárias, restaurantes, um clube badalado no centro de Seattle — mas que, por dentro, escondiam lavagem de dinheiro e ameaças que ele preferia resolver pessoalmente.
Rebecca tinha trabalhado como contadora pra uma das empresas dele.
Tinha visto números que não fechavam.
Tinha visto o suficiente pra que Victor decidisse que ela era perigosa demais pra deixar ir embora sem mais nem menos.
— Ele não me deixa ir porque tem medo de mim — disse ela, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Tem medo de que eu conte pra alguém o que eu sei.
— Você pode ir à polícia.
— Ele tem gente na polícia, Ethan. Tentei isso uma vez, em Seattle. No dia seguinte, alguém invadiu meu apartamento e deixou uma foto minha dormindo em cima da minha cama, só pra eu saber que podiam ter feito qualquer coisa enquanto eu estava lá.
Senti um arrepio subir pela espinha.
— Então o que a gente faz?
— Eu não sei mais.
Foi nesse momento que percebi uma coisa que não tinha me ocorrido antes.
— Espera. Você disse que trabalhou pra ele em Seattle. Você tem provas? Documentos, alguma coisa que mostre o que você viu?
Rebecca hesitou, então assentiu devagar.
— Uma cópia dos arquivos, escondida num lugar que só eu sei.
— Isso pode ser a nossa saída. Se a gente conseguir levar isso pras mãos certas, alguém que ele não controle, talvez a gente consiga acabar com isso de uma vez.
— É arriscado demais.
— Ficar escondendo é arriscado também, Rebecca. E eu não vou deixar você passar o resto da vida com medo de um carro parado na esquina.
Ela olhou pra mim por um longo momento, alguma coisa mudando na expressão dela — não exatamente esperança, mas algo próximo disso.
— Tem um cofre num banco em Seattle. Os documentos estão lá.
— Então a gente vai buscar.
— E se ele descobrir que a gente foi até lá?
Olhei pra pichação vermelha ainda visível através da vitrine, as palavras secando ao sol da manhã.
— Ele já sabe onde a gente está, Rebecca. A única coisa que ainda não sabe é que a gente não vai mais fugir.
