Chapter 2
Os primeiros dias na propriedade dos Pascale me ensinaram uma coisa rápido: Massimo não tinha nenhuma intenção de cooperar com o próprio tratamento.
— Vamos tentar de novo — eu disse, na segunda manhã, ajustando as barras paralelas na sala que tinham transformado num centro de reabilitação improvisado.
— Não.
— Você nem tentou.
— Eu já sei como vai terminar.
Cruzei os braços.
— Então prove que eu estou errada.
Ele me encarou por um longo instante, como se estivesse decidindo se valia a pena discutir ou simplesmente me ignorar até eu desistir, como as outras três antes de mim.
Mas eu não tinha para onde ir.
Ele se apoiou nas barras, tremendo, e eu vi o exato momento em que o orgulho dele lutou contra o corpo que não obedecia mais.
Ele durou onze segundos antes de cair de volta na cadeira.
— Satisfeita? — ele perguntou, a voz rouca de raiva.
— Onze segundos a mais do que ontem.
Ele não respondeu, mas alguma coisa no rosto dele mudou.
Os dias seguintes seguiram o mesmo padrão: ele resistia, eu insistia, ele cedia um centímetro, e fingia que não tinha cedido nada.
Aprendi a ler os guardas da casa também.
Eles não olhavam para Massimo como empregados olham para um patrão.
Olhavam como quem vigia algo frágil que precisa ser protegido de longe — e, às vezes, protegido dele mesmo.
Uma noite, ao passar pelo corredor perto do escritório, ouvi vozes abafadas.
— Ele não pode saber disso ainda — disse um homem que eu não reconheci.
— Ele vai descobrir — respondeu outra voz, mais baixa, mais familiar.
Parei no escuro, sem coragem de me mexer.
— Se ele descobrir antes da hora, tudo desmorona — disse o primeiro homem.
Não entendi do que estavam falando, mas entendi o suficiente para saber que não era sobre mim.
Voltei para o meu quarto com o coração acelerado e uma pergunta que não conseguia largar: o que exatamente tinham escondido de Massimo sobre o próprio acidente?
Na manhã seguinte, tentei agir como se nada tivesse acontecido.
Massimo, é claro, notou.
— Você está estranha hoje.
— Estou cansada.
— Mentirosa.
Eu quase sorri, apesar de mim mesma.
— Você também é grosseiro, então estamos empatados.
Ele riu — de verdade, dessa vez, um som curto e rouco que parecia desacostumado a sair dele.
— Ninguém fala comigo assim há muito tempo.
— Talvez porque ninguém aguenta o suficiente pra continuar tentando.
— E você aguenta?
Encarei-o.
— Ainda não decidi.
Alguma coisa mudou entre nós naquele instante — não confiança, ainda não, mas uma trégua silenciosa.
Continuamos o exercício do dia, e ele durou dezoito segundos nas barras.
— Está melhorando — eu disse.
— Ou você está mentindo pra me manter motivado.
— As duas coisas podem ser verdade.
Foi então que Camila apareceu na porta, o rosto tenso de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
— Tessa, posso falar com você um minuto?
Segui-a até o corredor, e ela fechou a porta atrás de nós.
— O que foi? — perguntei.
Ela hesitou, olhando por cima do ombro antes de responder.
— Preciso que você preste atenção em qualquer coisa estranha que Massimo disser sobre a noite do acidente.
Meu estômago gelou.
— Por quê?
Camila não respondeu direito.
— Só… me avise. É importante.
E antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ela já tinha ido embora, deixando um silêncio pesado atrás de si — e a certeza de que a história daquele acidente era bem mais complicada do que qualquer um tinha me contado.
