Cinquenta mil dólares por três meses de trabalho parecia a salvação da minha vida, até eu descobrir que o serviço era cuidar, dar banho e reabilitar um chefe da máfia preso a uma cadeira de rodas

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Chapter 3

Passei os dias seguintes dividida entre dois papéis: o de terapeuta que precisava ganhar a confiança de Massimo, e o de alguém que agora carregava um pedido estranho de Camila que não conseguia tirar da cabeça.

Tentei agir normal.

Não foi fácil.

— Você está me olhando diferente — Massimo disse, numa tarde, enquanto eu ajustava o cinto de apoio na cadeira.

— Não estou.

— Está sim. Desde ontem.

Ele tinha um jeito irritante de perceber tudo.

— Deve ser impressão sua.

— Eu não tenho impressões. Eu tenho certezas.

Mudei de assunto, perguntando sobre a dor nas pernas, e ele deixou passar — mas o jeito como me observou pelo resto do exercício me disse que ele não tinha esquecido.

Naquela noite, não consegui dormir.

Fiquei repassando a conversa que tinha ouvido no corredor.

Ele não pode saber disso ainda.

Se ele descobrir antes da hora, tudo desmorona.

O que era esse “tudo”?

Na manhã seguinte, encontrei Massimo mais calado que o normal, olhando pela janela com uma expressão que eu não sabia decifrar.

— Dia ruim? — perguntei.

— Dia normal. Só estou pensando.

— Em quê?

Ele demorou para responder.

— Na noite do acidente.

Meu corpo ficou tenso.

— O que tem ela?

— Eu não lembro de tudo. Os médicos dizem que é normal, com o trauma. Mas tem partes que… não fecham.

— Que tipo de partes?

Ele olhou para mim, calculando quanto podia confiar.

— Eu não estava sozinho no carro.

O ar pareceu sair da sala.

— Quem mais estava?

— Era pra ser só eu. Uma reunião de rotina. Mas alguém me ligou de última hora, mudando o trajeto.

— Quem ligou?

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Meu irmão.

O nome pairou entre nós como uma acusação que nenhum dos dois tinha coragem de terminar de fazer.

— Você acha que ele tem alguma coisa a ver com o acidente?

— Eu não sei o que acho. Só sei que ninguém nessa casa quer falar sobre aquela noite.

Foi nesse momento que entendi: o pedido de Camila não era paranoia.

Era um aviso.

Tentei manter a voz calma.

— Talvez seja só coincidência.

— Nessa família não existe coincidência.

O jeito como ele disse aquilo — sem raiva, só cansaço — me assustou mais do que qualquer ameaça gritada teria assustado.

Naquela tarde, durante o exercício, ele ficou de pé por vinte e cinco segundos, o tempo mais longo até então, mas nenhum de nós comemorou.

Estávamos os dois presos demais nos próprios pensamentos.

À noite, ao passar pelo jardim para voltar ao meu quarto, vi um carro desconhecido parado perto do portão lateral, luzes apagadas.

Fiquei parada, observando por segundos que pareceram longos demais.

O carro foi embora antes que eu conseguisse ver quem estava dentro.

Mas o motorista, por um instante, virou o rosto na minha direção — e mesmo na escuridão, tive certeza de reconhecer os olhos de alguém que já tinha visto dentro daquela casa.

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