Chapter 3
Passei os dias seguintes dividida entre dois papéis: o de terapeuta que precisava ganhar a confiança de Massimo, e o de alguém que agora carregava um pedido estranho de Camila que não conseguia tirar da cabeça.
Tentei agir normal.
Não foi fácil.
— Você está me olhando diferente — Massimo disse, numa tarde, enquanto eu ajustava o cinto de apoio na cadeira.
— Não estou.
— Está sim. Desde ontem.
Ele tinha um jeito irritante de perceber tudo.
— Deve ser impressão sua.
— Eu não tenho impressões. Eu tenho certezas.
Mudei de assunto, perguntando sobre a dor nas pernas, e ele deixou passar — mas o jeito como me observou pelo resto do exercício me disse que ele não tinha esquecido.
Naquela noite, não consegui dormir.
Fiquei repassando a conversa que tinha ouvido no corredor.
Ele não pode saber disso ainda.
Se ele descobrir antes da hora, tudo desmorona.
O que era esse “tudo”?
Na manhã seguinte, encontrei Massimo mais calado que o normal, olhando pela janela com uma expressão que eu não sabia decifrar.
— Dia ruim? — perguntei.
— Dia normal. Só estou pensando.
— Em quê?
Ele demorou para responder.
— Na noite do acidente.
Meu corpo ficou tenso.
— O que tem ela?
— Eu não lembro de tudo. Os médicos dizem que é normal, com o trauma. Mas tem partes que… não fecham.
— Que tipo de partes?
Ele olhou para mim, calculando quanto podia confiar.
— Eu não estava sozinho no carro.
O ar pareceu sair da sala.
— Quem mais estava?
— Era pra ser só eu. Uma reunião de rotina. Mas alguém me ligou de última hora, mudando o trajeto.
— Quem ligou?
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Meu irmão.
O nome pairou entre nós como uma acusação que nenhum dos dois tinha coragem de terminar de fazer.
— Você acha que ele tem alguma coisa a ver com o acidente?
— Eu não sei o que acho. Só sei que ninguém nessa casa quer falar sobre aquela noite.
Foi nesse momento que entendi: o pedido de Camila não era paranoia.
Era um aviso.
Tentei manter a voz calma.
— Talvez seja só coincidência.
— Nessa família não existe coincidência.
O jeito como ele disse aquilo — sem raiva, só cansaço — me assustou mais do que qualquer ameaça gritada teria assustado.
Naquela tarde, durante o exercício, ele ficou de pé por vinte e cinco segundos, o tempo mais longo até então, mas nenhum de nós comemorou.
Estávamos os dois presos demais nos próprios pensamentos.
À noite, ao passar pelo jardim para voltar ao meu quarto, vi um carro desconhecido parado perto do portão lateral, luzes apagadas.
Fiquei parada, observando por segundos que pareceram longos demais.
O carro foi embora antes que eu conseguisse ver quem estava dentro.
Mas o motorista, por um instante, virou o rosto na minha direção — e mesmo na escuridão, tive certeza de reconhecer os olhos de alguém que já tinha visto dentro daquela casa.
