Chapter 5
Não dormi naquela noite.
Fiquei sentada na cama, olhando para o bilhete, decidindo se contava a Massimo ou guardava só para mim, como uma tentativa inútil de me proteger fingindo que nada tinha acontecido.
Decidi contar.
Ele leu o bilhete duas vezes antes de amassar o papel na mão com uma força que eu não sabia que ele ainda tinha.
— Quem entrou no seu quarto?
— Eu não sei.
— Alguém dessa casa te ameaçou, e eu vou descobrir quem foi.
— Massimo, você mal consegue ficar de pé sozinho. O que você vai fazer, exatamente?
Foi cruel da minha parte, e eu me arrependi no instante em que as palavras saíram.
Mas ele não recuou.
— Eu vou usar a única coisa que ainda funciona em mim: a cabeça.
Naquela tarde, ele chamou os guardas de confiança, um por um, e fez perguntas que eu não tinha permissão para ouvir.
À noite, ele me chamou ao escritório.
— Enzo está vindo aqui amanhã. Vou colocar ele à prova.
— Como?
— Vou dizer que descobri quem sabotou meu carro. Vou ver como ele reage.
— Isso é perigoso.
— Tudo nessa família é perigoso, Tessa. A pergunta é: você fica ou vai embora antes que a coisa aconteça?
Ele estava me dando uma saída.
Eu deveria ter aceitado.
— Eu fico.
Alguma coisa passou pelos olhos dele — surpresa, talvez gratidão, talvez algo mais que nenhum dos dois estava pronto para nomear.
No dia seguinte, Enzo chegou ao meio-dia, sorridente, cumprimentando os guardas como quem já se sente dono de tudo aquilo.
Ele nem olhou direito para mim.
Isso, de alguma forma, me deixou mais nervosa ainda.
Massimo o recebeu na sala principal, eu posicionada perto da porta, como se estivesse ali apenas para cuidados médicos de rotina.
— Soube que você anda perguntando sobre a noite do acidente — Enzo disse, ainda sorrindo.
— Precisava fechar algumas pontas soltas.
— E fechou?
— Quase todas.
O sorriso de Enzo vacilou por meio segundo — tempo suficiente para eu perceber, e acho que suficiente para Massimo perceber também.
— Os freios não falharam sozinhos, Enzo.
A sala ficou em silêncio absoluto.
— Você está me acusando de alguma coisa? — Enzo perguntou, a voz mais fria agora.
— Estou te dando a chance de explicar antes que eu leve isso para o resto da família.
Enzo olhou para mim, pela primeira vez, com um desprezo que me gelou o sangue.
— Ela devia ficar fora disso.
— Ela está aqui porque eu confio nela mais do que confio em você.
O ar da sala pareceu ficar mais pesado a cada palavra.
Enzo deu um passo à frente, e um dos guardas se moveu instintivamente, mão perto do casaco.
— Você não tem provas — Enzo disse, por fim.
— Ainda não.
Foi a palavra “ainda” que fez Enzo sair da sala sem se despedir, deixando atrás de si uma tensão que nenhum de nós sabia como desfazer.
