Desculpa, querida. Ele era simplesmente tentador demais.

Written by

in

Chapter 3

O resultado do laboratório chegou pouco antes da meia-noite.

Daniel leu o relatório em silêncio, o rosto se fechando cada vez mais a cada linha.

— Tetrodotoxina — disse ele, finalmente, erguendo os olhos pra mim. — Concentração suficiente pra matar um homem do meu tamanho em menos de vinte minutos.

Senti um alívio amargo por ter sido levada a sério, misturado com o peso do que aquilo significava.

— Eu disse a verdade.

— Disse.

Ele largou o relatório sobre a mesa.

— O que não explica como uma cerimonialista identificou veneno numa taça de champanhe a três metros de distância.

Antes que eu pudesse inventar mais uma meia-explicação, a porta do escritório se abriu com força.

Katherine entrou como um furacão, os olhos vermelhos de choro forçado, o vestido azul-claro agora amassado.

— Daniel, eu preciso falar com você. Aquela mulher está mentindo, ela…

— Sente-se, Katherine.

A voz dele cortou o ar como aço.

Ela hesitou, mas obedeceu, os olhos disparando entre mim e ele.

— O laboratório confirmou veneno na taça que estava do meu lado da mesa — disse Daniel, sem rodeios. — Tetrodotoxina.

O rosto de Katherine empalideceu visivelmente.

— Isso é impossível. Eu não sei nada sobre veneno nenhum.

— Alguém colocou aquilo ali, Katherine. E a Emily viu você trocando as taças.

— Ela está mentindo! — Katherine se levantou, a voz subindo de tom. — Ela beijou meu noivo na frente de duzentas pessoas e agora está inventando uma história absurda pra desviar a atenção do próprio comportamento!

— Por que eu inventaria algo assim? — perguntei, mantendo a calma que estava longe de sentir. — O que eu ganharia com isso?

— Não faço ideia de quem você é ou o que você quer, mas claramente não é confiável.

— Chega.

Daniel se levantou, os punhos apoiados na mesa.

— Katherine, quem mais sabia que eu sempre pego a taça mais próxima da minha esquerda?

A pergunta pegou Katherine de surpresa, e por um segundo, antes que ela conseguisse recompor a expressão, vi puro pânico atravessar o rosto dela.

— Eu… todo mundo sabe disso, Daniel, você faz isso em toda festa.

— Não é verdade. É um hábito que eu nem percebia até você mencionar agora. Só pessoas muito próximas de mim reparariam nisso.

O silêncio que caiu sobre a sala era denso o suficiente pra cortar.

— Foi o Marcus — disse Katherine, de repente, a voz tremendo. — Seu próprio segurança. Ele estava do lado da mesa a noite inteira, teve acesso total às taças.

Daniel ficou parado, avaliando aquilo.

— Marcus trabalha comigo há doze anos.

— E quanto tempo leva pra alguém ser comprado, Daniel? Você acha mesmo que conhece as pessoas ao seu redor tão bem quanto pensa?

Aquilo pareceu atingir algo nele, uma dúvida real se instalando por trás dos olhos escuros.

Fiquei observando, sentindo o chão embaixo de mim ficar cada vez mais instável.

Se Katherine conseguisse desviar a culpa pra Marcus, ninguém jamais investigaria ela de verdade, e eu ficaria exposta como a única pessoa “estranha” naquela festa, sem aliados, sem provas concretas além do que meus próprios olhos tinham visto.

— Vou investigar o Marcus — disse Daniel, finalmente, mas os olhos dele se voltaram pra mim com uma pergunta silenciosa. — E vou continuar de olho em todo mundo até descobrir a verdade.

Katherine pareceu se acalmar com aquilo, os ombros relaxando visivelmente.

Foi então que meu celular vibrou no bolso escondido do vestido.

Uma mensagem.

De um número que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.

Meu pai.

“Preciso de um relatório completo até amanhã de manhã. E, filha, ouvi dizer que você beijou o Ashford na frente de todo mundo. Isso não estava no plano. Explique-se.”

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos