Desculpa, querida. Ele era simplesmente tentador demais.

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Chapter 6

A pergunta ficou suspensa entre nós, pesada o suficiente pra abafar até os últimos ecos do caos que ainda se acalmava pelo salão.

— Do meu lado — respondi, sem hesitar. — Eu escolhi isso no momento em que atravessei aquele salão pra impedir você de beber aquela taça.

Daniel me observou por um longo momento, como se tentasse decidir se podia realmente confiar naquela resposta.

— Seu pai não vai gostar disso.

— Meu pai nunca gostou de nada que eu fiz por vontade própria.

Um segurança se aproximou, informando que Katherine estava sob custódia e que a polícia particular da família já cuidava de “resolver a situação” de forma discreta, do jeito que aquele mundo sempre resolvia as coisas.

Nos dias seguintes, descobri que meu pai não tinha ficado satisfeito, nem um pouco.

Ele mandou três mensagens exigindo que eu voltasse imediatamente, cada uma mais ameaçadora que a anterior.

Eu não respondi a nenhuma.

Daniel, por sua vez, colocou seguranças extras ao meu redor, não como prisioneira, mas como alguém que ele genuinamente parecia querer proteger, mesmo depois de tudo que tinha descoberto sobre minha família.

— Isso não vai acabar bem — falei pra ele, numa tarde, sentados na varanda da mansão enquanto o sol se punha sobre o rio Hudson. — Meu pai não desiste fácil. Ele vai mandar alguém atrás de mim, ou atrás de você, mais cedo ou mais tarde.

— Eu sei.

— E mesmo assim você não me mandou embora.

— Eu já perdi pessoas suficientes nessa vida pra saber reconhecer quando alguém realmente escolhe ficar, mesmo podendo fugir fácil.

Duas semanas depois, o confronto que os dois esperávamos finalmente chegou.

Vincent Marchetti apareceu pessoalmente na mansão Ashford, sem avisar, escoltado por quatro homens armados, exigindo uma conversa “entre famílias”.

Daniel o recebeu no mesmo escritório onde, semanas antes, ele tinha me interrogado sobre quem eu realmente era.

Eu insisti em estar presente.

— Você roubou minha filha de mim — disse meu pai, sem rodeios, os olhos frios fixos em Daniel.

— Sua filha salvou minha vida duas vezes, contra as ordens diretas que você deu a ela. Ela não foi roubada. Ela escolheu.

— Ela é sangue Marchetti. Vai voltar pra onde pertence, com ou sem a permissão de vocês dois.

— Não vou — falei, dando um passo à frente. — Não vou voltar, pai.

Ele me olhou como se eu tivesse dito algo em outro idioma.

— Você vai jogar fora sua família por um homem que mal conhece?

— Eu vou escolher minha própria vida, pela primeira vez. Isso não é sobre o Daniel. É sobre eu nunca mais viver seguindo ordens que colocam pessoas inocentes em perigo enquanto eu finjo não me importar.

O silêncio que se seguiu foi tenso o suficiente pra sentir na pele.

— Isso tem um preço, filha. Você sabe disso.

— Eu sei.

Meu pai olhou entre mim e Daniel por um longo momento, calculando, do jeito que ele sempre calculava tudo.

— Então que fique claro entre nós: a partir de hoje, você não é mais bem-vinda em nenhuma propriedade da família. Não conte comigo se as coisas derem errado por aqui.

— Eu não contava mesmo.

Ele saiu sem mais uma palavra, os homens dele seguindo atrás, e o silêncio que ficou depois parecia, de alguma forma, mais leve do que qualquer coisa que eu tinha sentido em anos.

Meses depois, sentados na mesma varanda onde tínhamos conversado sobre o perigo que ainda nos rondava, Daniel segurou minha mão sem dizer nada, só observando o rio correr lá embaixo.

— Sem arrependimentos? — perguntou ele, finalmente.

— Nenhum.

— Mesmo perdendo sua família inteira por minha causa?

Olhei pra ele, pensando em todas as noites em que eu tinha vivido com medo de decepcionar meu pai, de nunca ser boa o suficiente, de existir só como uma peça útil num jogo que nunca foi meu.

— Eu não perdi uma família, Daniel. Eu finalmente encontrei o que uma família de verdade deveria parecer.

Ele sorriu, um sorriso raro e sincero, o tipo que eu nunca tinha visto nele antes daquela noite no salão de baile.

E, olhando pro rio se movendo devagar sob o céu alaranjado, entendi que às vezes a escolha mais perigosa que a gente pode fazer — atravessar um salão inteiro em três segundos, ou virar as costas pra tudo que sempre nos disseram que éramos — acaba sendo exatamente a escolha que nos salva.

E você, já teve que escolher entre o que esperavam de você e quem você realmente queria ser?

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