Foi a primeira vez que meu marido me tocou em três anos, e o olhar nos olhos dele me apavorou mais do que o sangue se espalhando aos meus pés.

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Chapter 2

Marcus me carregou até o sofá de couro branco, cuidadoso, como se eu fosse feita de porcelana tão frágil quanto o vaso que tinha acabado de quebrar.

— Alguém traga o kit de primeiros socorros — ordenou, sem tirar os olhos do meu pé. — Agora.

Um dos homens desapareceu rapidamente pelo corredor, enquanto os outros permaneciam parados, incertos, trocando olhares que eu não conseguia decifrar.

— Marcus, não precisa disso, eu consigo…

— Fique quieta.

Não foi rude. Foi quase desesperado.

Ele se ajoelhou diante de mim, examinando o corte no meu calcanhar com uma delicadeza que contrastava completamente com os três anos de distância gelada que eu conhecia dele.

Quando o kit chegou, suas mãos trabalharam com uma precisão que sugeria mais prática do que eu gostaria de imaginar — limpando o ferimento, aplicando antisséptico, enrolando uma bandagem com cuidado quase reverente.

— Você tem prática nisso — comentei, tentando quebrar o silêncio pesado.

— Tenho prática em muitas coisas que preferiria não ter.

Ergui os olhos para ele, e pela primeira vez em três anos, ele não desviou o olhar.

— Marcus, por que você nunca me toca? Por que mal fala comigo? Passei anos achando que você me desprezava.

Algo doloroso cruzou o rosto dele.

— Não é desprezo, Isabella.

Foi a primeira vez, em muito tempo, que ele usava meu nome com algo que não fosse formalidade vazia.

— Então o que é?

Ele hesitou, os olhos desviando brevemente para os homens ainda parados ao fundo da sala.

— Todos vocês, saiam. Agora.

Eles obedeceram sem questionar, deixando-nos finalmente sozinhos na sala imensa, o vaso quebrado ainda espalhado pelo chão como testemunha silenciosa daquele momento estranho.

— Marcus?

Ele se sentou ao meu lado no sofá, uma distância cuidadosa ainda entre nós, mas menor do que qualquer distância que ele tinha permitido em três anos.

— Você se lembra do homem que fez seu pai entrar em dívida?

Franzi a testa, tentando entender a mudança de assunto.

— Vagamente. Nunca soube o nome dele.

— Damian Kostas.

O nome não significava nada para mim, mas o jeito como Marcus o pronunciou — como veneno saindo da boca — me disse que deveria significar.

— Quem é ele?

— Um homem que jurou destruir minha família há quinze anos, depois que meu pai o expôs por lavagem de dinheiro que quase afundou metade dos negócios legítimos da cidade.

— O que isso tem a ver comigo?

— Damian descobriu, pouco antes do nosso casamento, que eu estava prestes a me casar com você. E descobriu, através de informantes, que eu já sentia algo por você antes mesmo de conhecê-la pessoalmente — através de fotos, relatórios, dos meus próprios homens que investigaram a situação do seu pai.

Meu coração começou a bater mais rápido, entendendo aos poucos.

— Ele ameaçou você?

— Ele jurou que, se algum dia percebesse que eu realmente me importava com você, que via em você algo mais do que um acordo de negócios, ele faria questão de te machucar só para me ferir.

As palavras caíram sobre mim como um balde de água fria.

— Por isso você nunca me tocou. Nunca demonstrou nada.

— Se eu tivesse deixado transparecer qualquer sentimento real por você, Isabella, eu teria assinado sua sentença de morte.

Olhei para ele, três anos de dor e confusão finalmente encontrando uma explicação que eu nunca tinha imaginado.

— Então por que hoje? Por que quebrar essa regra agora, com um simples corte no pé?

Ele tocou meu rosto, pela primeira vez, com uma ternura que parecia ter sido reprimida por tempo demais.

— Porque hoje, ao ouvir você gritar de dor, percebi que continuar fingindo indiferença estava me matando mais devagar do que qualquer ameaça de Damian Kostas jamais poderia.

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