Chapter 2
Marcus a carregou até o sofá da sala sem dizer mais nenhuma palavra, os homens armados desaparecendo silenciosamente pelo corredor sob um único gesto de mão dele.
— Preciso ver o corte — disse ele, já se ajoelhando na frente dela.
— Eu consigo cuidar disso sozinha.
— Arya.
Foi a primeira vez em meses que ele tinha dito o nome dela em voz alta, e o som daquilo a pegou completamente desprevenida.
Ela ficou em silêncio enquanto ele examinava o calcanhar cortado com cuidado surpreendente, os dedos firmes mas gentis contra a pele dela.
— Precisa de alguns pontos — murmurou ele, tirando o celular do bolso e digitando uma mensagem rápida.
— Não precisa chamar ninguém. É só um corte.
— É um corte fundo, e eu não vou arriscar uma infecção.
Minutos depois, um homem de meia-idade com uma maleta médica apareceu, e Marcus observou de perto enquanto ele limpava e costurava o ferimento, cada movimento seu tenso como se sentisse fisicamente a dor dela.
Quando o médico finalmente foi embora, um silêncio pesado se instalou entre eles, o primeiro momento verdadeiramente a sós que tinham em muito tempo.
— Obrigada — disse Arya, baixinho.
— Não precisa agradecer por eu fazer o mínimo.
— O mínimo teria sido chamar alguém e desaparecer de volta pro escritório, como sempre faz.
Marcus não respondeu de imediato, os olhos cinzentos fixos no curativo enrolado ao redor do pé dela.
— Por que você estava tão perto? — perguntou ele, finalmente. — Você sabe as regras.
— Eu ouvi sua voz mudar. Ouvi você dizer que tinham um problema sério, e minha curiosidade venceu o bom senso.
— Curiosidade nesse mundo pode te matar, Arya.
— Talvez a solidão também mate, só que mais devagar.
Aquilo pareceu atingi-lo de um jeito que ela não esperava, algo vulnerável cruzando brevemente sua expressão sempre controlada.
— Você acha que eu te ignoro por escolha fácil?
— Acho que você me ignora porque, pra você, eu nunca fui nada além de uma dívida quitada.
— Está errada.
A intensidade na voz dele a fez levantar os olhos, surpresa.
— Então por quê, Marcus? Três anos casados, e você mal olha na minha direção. Mal fala comigo, exceto pro estritamente necessário. Que tipo de casamento é esse?
Ele se levantou, afastando-se alguns passos, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo como se lutasse contra algo interno.
— Existem coisas que você não entende sobre o meu mundo, Arya.
— Então me explica. Já estou cansada de viver num apartamento cheio de coisas caras e nenhuma resposta.
Ele ficou de costas pra ela por um longo momento, olhando pra chuva ainda batendo contra as janelas.
— Todo homem que já significou algo pra mim virou um alvo, mais cedo ou tarde — disse ele, finalmente, a voz baixa. — Meu pai. Meu irmão mais novo. Um amigo de infância que eu tratava como família.
Arya sentiu o peito apertar.
— O que aconteceu com eles?
— Meu pai foi assassinado quando eu tinha vinte e dois anos, por rivais que descobriram o quanto ele significava pra mim, e usaram isso como alavanca antes de simplesmente decidirem eliminá-lo. Meu irmão desapareceu dois anos depois, provavelmente morto por inimigos que queriam me atingir onde doía mais. E meu amigo…
Ele parou, a voz falhando de um jeito que ela nunca tinha ouvido antes.
— Meu amigo foi torturado por semanas, só pra tentarem descobrir informações sobre mim que ele nem sequer possuía.
Silêncio pesado preencheu a sala.
— Você acha que, se as pessoas soubessem o quanto eu me importo com você, isso te colocaria em perigo — disse Arya, devagar, entendendo finalmente.
Marcus se virou, os olhos cinzentos carregados de uma dor antiga que ele claramente escondia havia anos.
— Eu não posso perder mais ninguém, Arya. Então eu escolhi manter distância. Escolhi deixar você acreditar que era só uma peça num acordo comercial, porque isso te mantinha segura de um jeito que carinho genuíno jamais conseguiria.
— E hoje? Por que quebrar essa regra agora?
Ele olhou pro curativo ao redor do pé dela, depois de volta pros olhos dela, algo se rendendo finalmente em sua expressão.
— Porque ver sangue seu no chão me fez perceber que eu já estava falhando em te proteger de qualquer jeito, mesmo mantendo distância. E talvez seja hora de parar de fingir que isso realmente funciona.
