Chapter 3
Nos dias seguintes, algo mudou sutilmente entre eles.
Marcus começou a jantar em casa, mesmo que em silêncio na maior parte do tempo, e Arya percebeu que ele a observava de um jeito diferente agora — não mais com a frieza calculada de antes, mas com uma atenção cuidadosa, quase protetora.
Ainda assim, ele não contava detalhes sobre os negócios, sobre o “problema sério” que tinha mencionado na noite do vaso quebrado, e a curiosidade de Arya só crescia.
Numa tarde, enquanto Marcus estava fora numa reunião, ela decidiu explorar o escritório dele pela primeira vez em três anos de casamento.
A porta, surpreendentemente, não estava trancada.
Dentro, encontrou pastas organizadas com cuidado militar, mapas de território marcados com alfinetes coloridos, e uma pasta específica, mais grossa que as outras, escondida no fundo de uma gaveta.
O nome na etiqueta fez seu sangue gelar.
Família Constantine.
Ela abriu a pasta com mãos trêmulas.
Dentro, fotografias antigas — um homem de rosto duro parecido vagamente com Marcus, provavelmente o pai dele, ao lado de outro homem cuja expressão carregava um ódio evidente mesmo através da fotografia desbotada.
Recortes de jornal sobre o assassinato do pai de Marcus.
Um relatório policial nunca resolvido sobre o desaparecimento do irmão mais novo dele.
E, no fundo da pasta, uma carta recente, datada de apenas duas semanas atrás, escrita numa caligrafia elegante e ameaçadora:
“Você tirou meu irmão de mim há vinte anos, Valentino. Chegou a hora de eu tirar algo seu também. Espero que sua esposinha aprecie o quanto você finge que ela não importa. Vou aproveitar bastante descobrir a verdade.”
Arya sentiu o ar sumir dos pulmões.
Alguém sabia.
Alguém sabia que, apesar de toda a distância calculada, Marcus se importava com ela mais do que jamais tinha admitido, e essa pessoa pretendia usar isso contra ele.
Ela guardou tudo exatamente como encontrou, o coração martelando, e esperou ansiosamente Marcus voltar pra casa naquela noite.
Assim que ele entrou, ela não conseguiu se conter.
— Quem é Constantine?
O rosto dele empalideceu instantaneamente.
— Onde você ouviu esse nome?
— Encontrei a pasta no seu escritório. A carta, Marcus. Alguém sabe sobre nós, sobre o que você realmente sente, e está ameaçando usar isso contra você.
Ele fechou os olhos por um longo momento, como se reunisse forças pra uma conversa que evitava havia anos.
— Salvatore Constantine é filho do homem que ordenou o assassinato do meu pai. Ele jura vingança contra minha família há duas décadas, esperando o momento certo pra atacar onde vai doer mais.
— E agora ele descobriu sobre mim.
— Aparentemente.
— Como?
Marcus passou a mão pelo rosto, um gesto cansado que revelava mais estresse do que qualquer palavra conseguiria.
— Não sei ainda. Mas alguém próximo o suficiente pra observar meu comportamento comigo mesmo deve ter notado alguma coisa que eu achava estar escondendo bem.
— A noite do vaso quebrado.
— Provavelmente.
O medo se instalou profundamente no peito de Arya, misturado com uma raiva nova, mais afiada.
— Então o que a gente faz agora?
— Você fica dentro dessa cobertura, com segurança reforçada, até eu resolver isso.
— Marcus, eu não posso simplesmente ficar presa aqui indefinidamente.
— Não é opcional, Arya. Constantine já matou meu pai, provavelmente meu irmão, e torturou meu melhor amigo até a morte. Ele não vai hesitar em usar você do mesmo jeito, se tiver a chance.
Ela olhou pra ele, entendendo finalmente a profundidade do medo que ele carregava havia tanto tempo, o peso que o fazia manter distância mesmo quando, aparentemente, seu coração queria exatamente o oposto.
— Eu não vou fugir disso, Marcus. Se esse homem já sabe sobre mim, esconder-me atrás dessas paredes só vai adiar o inevitável.
— Então o que você propõe?
— Que a gente enfrente isso junto, em vez de você tentar carregar tudo sozinho como sempre fez.
Marcus a estudou por um longo momento, algo mudando definitivamente em sua expressão — não mais o homem distante e controlado que ela conhecia havia três anos, mas alguém genuinamente assustado com a possibilidade de perder mais uma pessoa importante pra ele.
— Se algo acontecer com você por minha causa, Arya, eu nunca vou me perdoar.
— Então vamos garantir que nada aconteça. Juntos.
