Por três anos, Arya Valentino acreditou que não passava de um enfeite dentro da cobertura luxuosa do marido — uma esposa escolhida pra quitar uma dívida e depois silenciosamente esquecida.

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Chapter 6

O tiroteio pareceu durar uma eternidade, embora provavelmente tenham sido apenas minutos.

Arya ficou encolhida no banco de trás do carro blindado, o segurança bloqueando a porta com o próprio corpo, enquanto o som de tiros ecoava pelo armazém e seu coração martelava com um pavor que ela nunca tinha experimentado.

Então, de repente, silêncio.

Um silêncio pesado, ameaçador, que parecia ainda pior do que o barulho anterior.

— Fica aqui — ordenou o segurança, saindo cautelosamente do carro pra avaliar a situação.

Segundos que pareceram intermináveis se passaram antes que ele voltasse, abrindo a porta.

— Está seguro agora, senhora Valentino. Mas o senhor Valentino está ferido.

O mundo de Arya parou de girar por um instante antes de recomeçar em disparada.

Ela correu pra fora do carro, ignorando completamente as instruções de cautela, até encontrar Marcus encostado contra o contêiner de metal, uma mancha vermelha se espalhando pelo ombro do terno escuro.

— Marcus!

— Estou bem — disse ele, embora a voz saísse tensa de dor. — É só um arranhão.

— Não parece um arranhão.

Ajoelhando-se ao lado dele, Arya pressionou as mãos contra o ferimento, tentando estancar o sangue com o próprio cardigã, as mãos tremendo violentamente.

— Constantine? — perguntou ela, olhando ao redor com pavor.

— Morto — respondeu um dos homens de Marcus, se aproximando. — Ele tentou atirar em você através da janela do carro, senhora. O senhor Valentino se colocou na frente.

O sangue gelou nas veias de Arya.

— Você levou um tiro por mim?

Marcus a olhou, mesmo em meio à dor evidente, um leve traço de humor cruzando sua expressão.

— Eu disse que não ia perder mais ninguém importante pra mim, Arya. Isso incluía você, especialmente você.

Levaram Marcus imediatamente pra um médico particular de confiança da família, que removeu a bala e costurou o ferimento com precisão profissional, garantindo que, apesar da dor considerável, ele se recuperaria completamente em algumas semanas.

Naquela noite, sentada ao lado da cama dele na cobertura, observando o peito subir e descer com uma respiração estável, Arya finalmente permitiu que as lágrimas represadas descessem livremente.

— Ei — murmurou Marcus, acordando parcialmente, a voz rouca de sedativos. — Por que está chorando?

— Porque eu quase te perdi hoje, e só percebi nesse momento o quanto isso me destruiria.

Ele estendeu a mão boa, encontrando a dela, entrelaçando os dedos com cuidado.

— Eu passei três anos tentando te proteger mantendo distância, achando que isso era amor de verdade — disse ele, devagar. — Hoje eu entendi que amor de verdade significa estar presente, mesmo com todo o risco que isso implica.

— Marcus…

— Eu te amo, Arya. Amo há mais tempo do que eu jamais tive coragem de admitir, até pra mim mesmo.

As lágrimas de Arya se transformaram em algo diferente agora, alívio e felicidade se misturando de um jeito que ela nunca tinha experimentado em três anos inteiros de casamento silencioso.

— Eu também te amo, Marcus. Mesmo sem saber, acho que sempre amei, esperando pacientemente o dia em que você finalmente deixasse eu entrar de verdade.

Nas semanas seguintes, com a ameaça de Constantine definitivamente neutralizada e o restante da organização rival dissolvida sob a liderança de Marcus, a cobertura que antes parecia uma prisão elegante começou, finalmente, a parecer um lar de verdade.

Arya escolheu novas peças de decoração pela primeira vez, cores mais quentes substituindo a frieza impessoal de antes.

Marcus passou a jantar em casa todas as noites, sem exceção, contando pedaços de sua vida que ele nunca tinha compartilhado com ninguém antes.

Um ano depois daquela noite chuvosa em que um vaso quebrado mudou tudo, Arya observava Marcus brincando distraidamente com o anel de platina no próprio dedo, um hábito novo que ele tinha desenvolvido desde que finalmente permitira que aquele símbolo significasse o que sempre deveria ter significado.

— No que está pensando? — perguntou ela, sentando-se ao lado dele na varanda.

— Estava pensando em como um pedaço quebrado de porcelana conseguiu fazer mais pelo nosso casamento do que três anos inteiros de silêncio cuidadosamente planejado.

Arya sorriu, apoiando a cabeça no ombro dele, o mesmo que carregava agora uma cicatriz que serviria pra sempre como lembrança de quanto ele estava disposto a arriscar por ela.

— Às vezes as coisas precisam se quebrar completamente antes que a gente perceba o que realmente vale a pena consertar.

E enquanto observavam juntos o sol se pôr sobre Manhattan, ambos entenderam finalmente que o silêncio que antes parecia proteção tinha sido, na verdade, a maior ameaça de todas contra a felicidade que os dois mereciam ter encontrado muito antes.

E você, já teve que quebrar algo por dentro pra finalmente deixar alguém enxergar quem você realmente é?

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