Chapter 4
Aquela frase ficou comigo pelo resto do dia, girando na minha cabeça como um aviso e uma ameaça ao mesmo tempo.
Terminei o curativo em silêncio, e Dominic não insistiu mais no assunto, mas eu sentia o peso do olhar dele em cada movimento meu.
Quando saí do quarto, Leo estava esperando no corredor, os braços cruzados.
— Você ouviu alguma coisa hoje de manhã?
Meu estômago apertou.
— Não sei do que você está falando.
— Nora.
Ele disse meu nome do mesmo jeito que Dominic tinha dito, como se fosse capaz de arrancar a verdade só pela forma como pronunciava as sílabas.
— Eu ouvi vozes — admiti, finalmente. — Não entendi tudo.
Leo ficou em silêncio por um longo momento, avaliando alguma coisa.
— O que você ouviu fica entre nós dois. Não fala com ele sobre isso.
— Por que não?
— Porque ainda não é hora.
— Isso tem a ver com o irmão dele, não tem? Com o Marco?
O rosto de Leo empalideceu visivelmente.
— Onde você ouviu esse nome?
Não respondi.
Ele se aproximou um passo, a voz baixando ainda mais.
— Escuta bem. Marco Rossi desapareceu há três semanas, na mesma noite em que Dominic levou o tiro. Ninguém sabe se ele fugiu, se está escondido, ou se está morto.
Meu coração disparou.
— E o Dominic acha que o irmão dele…
— Dominic não sabe de nada disso ainda. E vai continuar assim até ele estar forte o suficiente pra lidar com a verdade, seja ela qual for.
— Isso não é da minha conta pra decidir — falei —, mas mentir pra um homem sobre o próprio irmão parece um jeito e tanto de fazer ele confiar ainda menos em quem está ao redor dele.
Leo me olhou por um longo momento, algo suavizando na expressão dele.
— Você se importa mesmo com ele, não é?
Não tive uma resposta pronta pra isso.
Três dias depois, tudo mudou.
Cheguei de manhã e encontrei a casa em polvorosa — carros pretos enfileirados no pátio, homens de terno circulando pelos corredores com rostos tensos.
Leo me interceptou antes mesmo de eu chegar às escadas.
— Encontraram o carro do Marco.
— E ele?
— Não estava dentro. Mas encontraram sangue no banco de trás.
Subi correndo até o quarto de Dominic, ignorando as regras pela primeira vez desde que tinha começado a trabalhar ali.
Ele estava de pé, algo que eu nunca tinha visto antes, apoiado contra a cômoda, o rosto uma máscara de fúria contida.
— Você sabia — disse ele assim que me viu, a voz cortante como vidro.
Congelei na porta.
— Sabia de quê?
— Não minta pra mim, Nora. Leo me contou tudo agora há pouco. Você sabia sobre o Marco e não falou nada.
— Eu ouvi uma conversa por acaso, há alguns dias. Não sabia o que fazer com aquilo.
— Você devia ter vindo falar comigo.
— E o senhor teria feito o quê, numa cama, com uma ferida infeccionada? Se levantado pra sangrar até morrer atrás do próprio irmão?
Isso o silenciou.
Por um momento, a raiva na expressão dele vacilou, substituída por algo mais cru, mais exposto — medo, talvez, ou culpa.
— Ele é a única família que me resta — disse Dominic, a voz de repente muito mais baixa. — E se alguém chegou perto dele o suficiente pra fazer isso, a mesma pessoa sabia exatamente onde me encontrar naquela noite.
Meu sangue gelou.
— Está dizendo que quem atirou no senhor…
— Estou dizendo que essa pessoa está bem perto de nós, Nora.
Ele olhou direto para a porta do quarto, como se pudesse enxergar através das paredes até o resto da casa.
— E eu pretendo descobrir quem é, nem que seja a última coisa que eu faça.
