Chapter 5
Nos dias seguintes, Dominic mudou.
A febre tinha passado, a ferida estava cicatrizando, e no lugar do homem fraco que eu tinha encontrado naquela primeira noite, agora havia alguém alerta, calculista, com os olhos sempre fixos na porta.
Ele mandou reforçar a segurança da casa.
Trocou as fechaduras.
Convocou reuniões atrás de portas fechadas que duravam horas.
Eu continuava indo todos os dias, oficialmente para acompanhar a recuperação dele, mas cada vez mais ele me chamava para perto durante essas reuniões, como se confiasse em mim de um jeito que não confiava em mais ninguém na casa.
— Fica — disse ele, numa tarde, quando percebi os homens começando a se reunir na sala ao lado e me levantei para sair. — Quero você aqui.
— Eu não entendo nada sobre esse mundo, Dominic.
— Eu sei. É exatamente por isso que confio em você.
Sentei numa cadeira no canto, tentando entender o máximo que conseguia daquelas conversas em código, nomes murmurados, mapas espalhados sobre a mesa.
Foi numa dessas tardes que tudo desmoronou.
Um dos homens de Dominic, um sujeito magro chamado Ricardo que eu já tinha visto rondando a casa várias vezes, entrou apressado na sala, o rosto pálido.
— Encontramos ele.
Dominic se levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.
— Onde?
— Numa casa abandonada, a quarenta minutos daqui. Ele está vivo, mas machucado.
— E quem estava com ele?
Ricardo hesitou, os olhos indo rapidamente até mim e voltando para Dominic.
— Pode falar na frente dela — disse Dominic, sem nem olhar para trás.
— Era o Leo, senhor.
O silêncio que caiu sobre a sala foi absoluto.
Dominic ficou parado, completamente imóvel, como se as palavras tivessem physicamente atravessado ele.
— Repete isso.
— Leo estava guardando o seu irmão, senhor. Numa casa que ninguém mais conhece. Ele confirmou pros nossos homens que foi ele que atirou no senhor naquela noite.
Meu coração parou.
Eu pensei em todas as conversas que tinha ouvido, todos os avisos que Leo tinha me dado para não contar nada a Dominic, o jeito como ele sempre parecia saber exatamente o que estava acontecendo dentro daquela casa.
— Por quê? — a voz de Dominic saiu quase quebrada. — Por que ele faria isso?
Ricardo baixou os olhos.
— Ele disse que estava protegendo o Marco de alguma coisa. Que o senhor ia mandar matar o próprio irmão se descobrisse o que ele andava fazendo com o dinheiro da família.
Dominic ficou em silêncio por um longo, longo momento.
Então, sem dizer mais nada, ele pegou o casaco pendurado na cadeira e começou a se dirigir para a porta.
— Você ainda não está forte o suficiente pra sair dessa casa — falei, me colocando entre ele e a saída antes mesmo de pensar no que estava fazendo.
— Sai da frente, Nora.
— Não.
Ele parou, os olhos escuros cravados nos meus, o mesmo confronto da nossa primeira noite juntos, só que dessa vez diferente — dessa vez havia algo mais ali, algo que nenhum dos dois tinha dito em voz alta.
— Se você for até lá sozinho, ferido, com raiva, alguém vai sair machucado. Talvez você. Talvez o seu irmão.
— Ele é meu irmão, e o homem em quem eu mais confiava no mundo inteiro atirou em mim e mentiu na minha cara por semanas.
A voz dele quebrou levemente na última palavra.
— Eu sei — falei, mais suave agora. — E é exatamente por isso que você precisa pensar antes de agir, não só sentir.
Ele me olhou por um longo momento, o peito subindo e descendo com a respiração pesada.
— Então vem comigo.
Não era um pedido.
Era quase uma súplica.
E, pela primeira vez desde que eu tinha entrado naquele quarto escuro cheio de sangue e raiva, eu vi Dominic Rossi não como o chefe de máfia que todo mundo temia, mas como um homem prestes a perder tudo o que ainda lhe restava.
— Vou — respondi. — Mas vamos fazer isso do meu jeito.
